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terça-feira, 31 de março de 2026

Um Adeus ao Vêneto, Um Sonho no Brasil — A Comovente História da Família Piazzetta


A Saga Real de uma Família Italiana do Vêneto que Emigrou para o Brasil


1. As Raízes no Vêneto: Terra, Trabalho e Tradição Italiana

A história real da família Piazzetta, originária de Pederobba, na província de Treviso, é um dos muitos capítulos que revelam a força da imigração italiana no Brasil no final do século XIX. Entre as colinas férteis do Vêneto, aos pés dos Pré-Alpes, essa família viveu séculos marcados por trabalho artesanal, fé católica e amor à terra — valores que cruzariam o oceano junto com eles.

Pederobba, pequeno município vêneto banhado pelo rio Piave, conserva até hoje o encanto das aldeias antigas: ruas estreitas, casas de pedra com telhados de terracota e a torre da igreja que domina o horizonte. Ali, entre vinhedos de Raboso del Piave e Glera — uvas que dariam origem ao famoso Prosecco —, nasceu a trajetória de uma família cuja herança marceneira e coragem se tornariam símbolo do espírito dos emigrantes italianos. As suas ruas estreitas e tortuosas são testemunhas vivas de séculos: vilas e casas de pedra com telhados de terracota, muros que guardam histórias, e a antiga igreja matriz, cuja torre sineira recorta o horizonte e dita o compasso dos dias. 

2. O Ofício Herdado: Tradição da Marcenaria Vêneta e a Família Piazzetta

É nesse mundo costurado por terra, trabalho e fé que conhecemos Giuseppe Piazzetta, filho de Domenico — nascera em 1808, vindolocalidade de Fener, no vizinho município de Alano di Piave. Giuseppe cresceu entre formões, plainas e serras, e aprendeu desde cedo com o pai os segredos da marcenaria: a paciência do corte, o respeito pela madeira, o sentido do encaixe perfeito. Quando jovem, moveu-se com a família para Pederobba por motivos de trabalho, e ali fincou raízes: a oficina no térreo da casa de dois pisos, no antigo bairro chamado Ghetto, tornou-se centro e destino. O cheiro de madeira recém-cortada e resina impregnava o ambiente; as paredes exibiam ferramentas antigas, passadas de geração em geração; a luz das grandes janelas fazia dançar no pó as partículas de um ofício que era herança e destino.

Foi ali, naquela oficina marcada por mãos calejadas, que cresceu e aprendeu Francesco, filho de Giuseppe — um rapaz de olhar vivo e azul penetrante. Desde cedo, Francesco mostrou destreza ímpar: dedos ágeis que transformavam troncos brutos em peças úteis e belíssimas, traços firmes ao entalhar uma cadeira, paciência de artista ao montar a estrutura de uma casa. A oficina, que anos depois herdaria de seu pai Giuseppe, ganhou sob suas mãos renome e respeito: de agricultores a nobres proprietários de vilas, todos vinham buscar a precisão, a resistência e a beleza das peças saídas do pequeno ofício.

Na vida cotidiana de Pederobba havia um ritmo quase ritual — as tradições guardadas, as festas das colheitas, as celebrações religiosas, as conversas nas praças entre lavradores e artífices. As crianças corriam pelas ruas, os anciãos trocavam memórias à sombra das árvores e o trabalho moldava corpos e pensamentos. Mas sob a superfície serena, vinham rumores de mudança: as transformações políticas e sociais que varriam a Europa chegavam até o vilarejo, nas conversas sussurradas, nas cartas que chegavam amareladas. Francesco, de mente inquieta e espírito curioso, sentia crescer em si uma angústia que não sabia nomear — a pergunta sobre o seu papel naquele mundo a mudar.

3. Amor, Luto e a Decisão de Partir para o Brasil

Foi numa dessas festas tradicionais da região que Francesco encontrou Maria Augusta Verri, moça nascida na vizinhança dos vales de Segusino, filha do proprietário de uma estalagem que servia de pouso aos balseiros que retornavam a pé de Veneza após as descidas do Piave. Maria Augusta tinha cabelos negros como a noite e olhos em que algo de sereno brilhava; sua presença aquietava a sala e dava calor às conversas. O encontro irrompeu como um instante decisivo: mais tarde casaram-se em Segusino, no verão seguinte — igreja e praça transformadas em festa, o cheiro de flores de laranjeira no ar, risos e vinho partilhados até o crepúsculo. Francesco Piazzetta tinha 26 anos de idade e Maria Augusta Verri 21.

Francesco reformou para Maria a antiga casa de madeira de dois pisos com as próprias mãos. A casa era simples, sólida, com janelas que emolduravam vistas do Piave e das montanhas; ali nasceriam os cinco filhos: a primogênita Giuseppina(Pina para a família), Giovanni Battista — carinhosamente GioBatta —, as irmãs Maria Augusta (recebendo o mesmo nome da mãe), Colomba, e por fim o caçula Noè. Cada um cresceu entre o cheiro da madeira e o som do ofício; Giovanni herdou do pai a força e a precisão; Noè trazia no rosto a expressão serena que lembrava o avô Giuseppe.; as irmãs eram inseparáveis nas explorações dos bosques próximos. Em casa, o alimento vinha da terra e do esforço: ao redor da grande mesa, partilhavam-se pedaços de pão, polenta e vinho caseiro — pequenas certezas diante da precariedade.

A oficina era mais que trabalho: era identidade. Junto ao carpinteiro renomado que o próprio Giuseppe tornara, Francesco via os troncos se transformar em móveis que atravessavam gerações. Clientes vinham de longe: agricultores que buscavam robustez; proprietários das vilas em busca de elegância. Sob a luz que entrava pelas janelas, a serragem era testemunha dos dias laboriosos; e, nas mãos de Francesco, a madeira ganhava forma e, com ela, o sustento da família.

Mas o mundo além das colinas sussurrava promessas. A Itália, já unificada, não era o lugar próspero que se imaginara: impostos pesavam, colheitas falhavam por intempéries; as conversas na praça, diante da igreja, frequentemente deslizavam para relatos de terras distantes onde o trabalho parecia farto. Francesco ouvia com atenção. Aprendera com seu pai a honrar o ofício, mas sentia que as raízes de Pederobba não segurariam todos os seus filhos. O desejo de oferecer-lhes futuro o corroía por dentro como uma maré.

Em 1886, a tragédia que abrira uma ferida definitiva: Maria Augusta, aos 42 anos — mulher de fibra, incansável no trabalho e mãe dedicada — foi vencida por um câncer de mama. A doença roubou-lhe as forças em silêncio, e a casa mergulhou num luto que ocupou cada canto. Para Francesco, já com 47 anos, a perda foi um abismo. O silêncio após a partida dela pesava mais que qualquer fadiga do ofício. Viúvo, cansado e sem a presença que ordenara os dias, apoiou-se nos filhos; Pina, a primogênita, assumiu com maturidade precoce as tarefas da mãe, sustentando o lar e trazendo um fio de ordem aos dias marcados pela ausência.

Algum tempo depois, quando Giuseppina casou-se, a casa perdeu outro pilar. A partida da filha mais velha acentuou a solidão de Francesco e deixou clara a dura verdade: sozinho, ele não conseguiria garantir um futuro digno aos filhos que ainda viviam sob seu teto. A Itália mostrava-se estéril para sonhos que exigiam chão e oportunidades. Entre vizinhos e parentes, nas conversas longas nas noites de inverno, começou a amadurecer no peito de Francesco uma ideia que muitos já haviam tido antes: emigrar para o Novo Mundo — o distante Brasil, terra de lendas e possibilidades, onde compatriotas relatavam recomeços.

A decisão foi prática e dolorosa: vendeu a casa, o pequeno terreno e os bens que podiam ser desapegados. Reuniu o modesto patrimônio que acreditava suficiente para recomeçar. As cartas que chegavam de amigos e parentes que já haviam cruzado o oceano falavam de Curitiba, cidade jovem rodeada por colinas e pinheirais, com clima que lembrava o do Vêneto; falavam também de núcleos de imigrantes que abriam estradas, cultivavam a terra e erguendo novas esperanças. Tudo isso, lido entre brasas de saudade, alimentou a convicção final. Partiriam.

4. A Travessia dos Emigrantes Italianos: Do Piave ao Atlântico

No final de novembro de 1890 — quatro anos após a morte de Maria Augusta —, quando o outono já se curvava ao inverno, a família se despediu de Pina — filha e irmã que ficaria em Pederobba pois já tinha a sua própria família. A despedida foi de um silêncio cortante: soluços contidos, olhares firmes, mãos que se apertavam como se a separação pudesse ser retardada por força de vontade. Partiram ainda na penumbra, quando a primeira claridade se insinuava sobre telhados cobertos de neve. Seguiram a pé até a estação de Cornuda, caminho longo e gelado, com vento cortante e corações pesados. O apito do trem soou como sentença; ao embarcarem, Francesco olhou as montanhas do Vêneto pela última vez e sentiu escapar uma lágrima.

O trem os conduziu a Gênova, onde o porto fervilhava de gente e esperança. Entre malas, gritos e o cheiro salgado do mar, avistaram o navio Adria, imenso e escuro, balançando nas águas. Aquele colosso de ferro seria morada e provação nas semanas seguintes: a travessia marcaria uma ruptura profunda entre o que se deixava e o que se buscava. No porão e nos convés, viveram o peso da viagem: espaços exíguos, ar pesado, o balanço incessante. À noite o frio rasgava até os ossos; durante o dia, o calor e a umidade faziam o ar quase sufocante; o sono vinha fragmentado, perturbado pelo ranger das madeiras e pelo rumor dos motores. Crianças choravam por comida e terra firme; adultos recolhiam-se em silenciosa contemplação.

Apesar da ausência de grandes tempestades, as semanas a bordo deixaram marcas: a monotonia do mar que engolia o horizonte, a saudade que apertava o peito, o jornal diário dos pequenos afazeres que se repetiam. Francesco, muitas vezes, sentava-se no convés ao entardecer, acompanhando o poente como se buscasse nas cores do céu um sinal da Itália que se perdia atrás das ondas. E quando, enfim, as belas montanhas se desenharam no horizonte e o sol cintilou sobre as águas da vasta baía do Rio de Janeiro, um arrepio de emoção percorreu a família — a travessia chegava ao fim, e diante deles se abria o mistério de um novo destino.

5. O Novo Mundo: A Chegada dos Imigrantes Italianos 

  • Da Ilha das Flores à Colônia Dantas no Paraná

Ao chegarem ao Brasil, foram submetidos aos trâmites habituais: exames médicos, registros e verificações. Francesco e os seus foram encaminhados à Hospedaria da Ilha das Flores, onde permaneceram por dois dias. O edifício, amplo e barulhento, fervilhava de vozes em dezenas de línguas, de crianças chorando e de mulheres que tentavam, com ingredientes novos, cozinhar algo que lembrasse casa. Aquele lugar era de passagem, de recepção e de espera. Em dois dias provaram o calor úmido, o aroma intenso do café, a luz que parecia ferir os olhos acostumados às neblinas do Vêneto. A saudade persistia, mas a expectativa também crescia.

Na manhã do terceiro dia foram chamados e receberam ordem de embarcar novamente: o navio da costa seria o Maranhão, casco escuro e calado raso, apropriado às águas costeiras do sul. Subiram com seus poucos pertences, misturados a outros imigrantes que seguiam para as colônias no Paraná. O Maranhão deixou o porto do Rio sob sol abrasador e seguiu rente à costa. O mar alternava entre calmaria e inquietação; a brisa trazia odores novos, promessas e algum temor.

Dias depois, avistaram Paranaguá, porto cercado por montanhas e mata densa. O silêncio reverente tomou o convés; ali começaria sua nova vida. Francesco sentiu, ao respirar o ar quente e pesado do litoral, que deixava, enfim, o passado um pouco mais distante. De Paranaguá embarcaram no trem que venceria a íngreme Serra do Mar rumo a Curitiba. O velho comboio avançava lentamente, rangendo sobre trilhos úmidos, serpenteando entre abismos e encostas cobertas por uma vegetação que parecia inexplorada. Pela janela, a família contemplou cascatas, neblinas como véus e um mundo vegetal tão denso que quase não cabia na imaginação.

Para olhos habituados às vinhas e às colinas do Vêneto, aquele mundo tropical era outro planeta: árvores que subiam ao céu, folhas de brilho intenso, cantos de aves desconhecidas. Entre o espanto e a emoção, prevalecia o silêncio observador. Francesco mantinha o olhar fixo, com o filho mais velho ao lado, e pensava nos que ficavam — na filha Pina, na cidade — e no que seria preciso construir do nada. Ao ganhar altitude, o ar tornava-se mais ameno, lembrando-lhe, em migalhas, a terra que deixara. E quando, ao entardecer, avistaram as primeiras casas de Curitiba, uma emoção profunda o percorreu: parecia encontrar, naquele recanto distante, algo que poderia ser chão para seus passos.

6. O Recomeço na Terra Vermelha do Paraná: A Vida dos Imigrantes

Da estação, seguiram em carroça rumo à Colônia Dantas. Francesco, com a ajuda de um amigo ali residente, já havia adquirido um lote que julgou promissor. A estrada enlameada e sinuosa, puxada por bois, serpenteava por clareiras e matas; o cheiro de terra molhada e pinheiros recém-cortados impregnava o ar. A cada curva, uma nova paisagem se descortinava: casas de madeira fumegando entre neblinas, riachos cristalinos, e a presença humana ainda esparsa naquele território.

Ao chegarem ao lote, o cansaço deu lugar ao espanto. Diante deles erguiam-se uma pequena casa de madeira, aparência precária, tábuas gastas e telhado remendado com zinco; buracos nas paredes deixavam entrar vento; o chão de terra batida denunciava abandono. Mas para os recém chegados a cabana era mais do que abrigo: era o primeiro lar em terras brasileiras, a base de uma nova vida. improvisaram com o pouco que possuíam: acenderam fogo, prepararam uma refeição simples com mantimentos trazidos da cidade, e o crepitar da lenha fez com que sombras dançassem nas paredes irregulares.

Naquela noite, Francesco sentou-se à soleira da porta e observou o céu. Pensou no longo caminho — nas vinhas do Vêneto, no ofício herdado, na filha Pina — e soube que ali, naquele pedaço rude de chão, começava o verdadeiro trabalho de recomeçar. O frio noturno cortava a pele, mas dentro da cabana havia um calor maior que a lenha: a certeza de chegada, a esperança de plantar raízes.

7. A Herança da Madeira e da Fé: o Legado da Família   Piazzetta

Os primeiros meses foram de esforço extenuante, de pequenas conquistas e de adaptação. A Colônia Dantas era ainda amontoado de casas, picadas pelo campo e o som constante de ferramentas agrícolas; o trabalho exigia horas a fio; porém, para Francesco, as mãos ainda guardavam firmeza e precisão — ferramentas antigas, serrotes, plainas, formões e martelos trazidos de Pederobba, embrulhados com cuidado, eram mais que instrumentos: eram a continuidade de uma linhagem que transformava madeira em abrigo e sustento. Com o auxílio do filho mais velho, Giovanni, construiu um galpão de tábuas ao lado da casa; Noè, com nove anos, observava em silêncio, correndo entre as pilhas de madeira, ajudando com pregos e varrendo as lascas.

No início, encomendas eram raras; a colônia ainda precisava se organizar e poucos tinham recursos para móveis elaborados. Pai e filho aceitaram todo trabalho: colaborar em construções de casas, pontes e celeiros; serrar tábuas para os vizinhos; e, quando possível, trabalhar na cidade. Em Curitiba encontraram serviço junto à Estrada de Ferro do Paraná, colaborando na montagem e no reparo de interiores de vagões — bancos, divisórias, caixotes, suportes — com o mesmo zelo que dedicavam a um móvel doméstico.

A rotina era dura: saíam de madrugada, regressavam ao entardecer cobertos de serragem, e retornavam exaustos. Mas a satisfação vinha do trabalho honesto: aos domingos, Francesco afiava lâminas, ajustava ferramentas e transmitia a Giovanni e Noè os segredos do ofício — o encaixe perfeito, o polimento até o brilho. Aos poucos, a oficina começou a ganhar nome entre os vizinhos da colonia e alguns moradores de outros locais da cidade. Mesas, arcas, camas, janelas passaram a sair do galpão; o cheiro da madeira nova tornou-se o perfume do lar.

Quando o movimento aumentou, pai e filho decidiram dedicar-se exclusivamente à marcenaria. Naquele galpão, sob a luz tênue da lamparina, Francesco sentiu renascer algo que julgara perdido na travessia: a dignidade do ofício e a sensação de pertencer. Cada peça que deixava suas mãos não era apenas trabalho, mas fragmento de esperança, elo entre o velho mundo deixado para trás e o novo que ajudavam a construir.

E assim, no chão vermelho do Paraná, entre suor e serração, a família reconstituía-se: memórias do Vêneto preservadas na língua, nos costumes, nas ferramentas; a terra brasileira transformada pelo trabalho em sustento; e a certeza, mais forte do que o medo, de que haviam feito a escolha necessária para assegurar um futuro aos filhos. A saga de uma família — nascida sob as colinas do Piave, erguida pelo ofício da madeira e moldada pelas perdas — prosseguia, resistente como o próprio carvalho que um dia dariam forma às mãos. 

8. Nota do Autor uma História Verdadeira da Imigração Italiana

Esta obra, “A Saga Real de uma Família Italiana do Vêneto que Emigrou para o Brasil”, não é apenas uma narrativa literária — é a reconstrução de uma história verdadeira, nascida da própria memória familiar do autor.

Os acontecimentos aqui relatados têm origem nas lembranças transmitidas de geração em geração em antigas cartas guardadas com devoção e nos registros que resistiram ao tempo. Cada personagem, cada gesto e cada decisão refletem o caminho real percorrido pelos antepassados que, no final do século XIX, deixaram a pequena Pederobba, na província de Treviso, para tentar a vida no Brasil.

Mais do que uma viagem geográfica, esta é uma travessia humana. É o relato da coragem e da dor de uma família comum que, como tantas outras, enfrentou a incerteza do oceano e o desafio de começar do nada em uma terra distante.

O autor buscou reviver não apenas os fatos, mas o espírito daquela época — o silêncio das despedidas, o cansaço das travessias, o espanto diante da nova paisagem, e, sobretudo, a esperança que sustentou aqueles que vieram antes de nós.

Assim, “Pederobba 1890” é também um ato de gratidão: um modo de dar voz aos que não puderam contar sua própria história, e de preservar, entre a lembrança e o afeto, a herança moral e cultural que moldou tantas famílias descendentes de italianos no Brasil.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




quarta-feira, 20 de março de 2024

Família de Francesco Piazzetta: Uma História de Superação e Perseverança

Igreja Sagrado Coração de Jesus (Água Verde) em 1910


Francesco Piazzetta, nascido em Pederobba, filho de Giuseppe Piazzetta e Caterina Franco, viúvo há três anos de Maria Augusta Verri, natural da cidade vizinha de Segusino, com a ajuda de seus cinco filhos, se preparou durante meses para a grande mudança que os levaria ao Novo Mundo. Vendeu a antiga casa de dois andares na "contrada Ghetto" em Pederobba, onde a família vivia, e todos os seus poucos bens, conseguindo juntar uma pequena economia que seria usada para iniciar a vida na nova pátria. Foi à prefeitura e obteve os passaportes para todos poderem deixar o país. Comprou passagens para o navio Adria, que partiria de Gênova no mês de dezembro, e se despediu dos amigos e da família que ficaram para trás. No último mês de 1890, Francesco Piazzetta, aos 51 anos de idade, nascido em 1839 em Fener, no município vizinho de Alano di Piave, província de Belluno, finalmente deixou a Itália e emigrou para o Brasil com seus quatro filhos - Giovanni Battista, Noè, Colomba e Augusta. A filha mais velha, Giovanna Antonia (Piazzetta) Viviani, ficaria para trás, pois já era casada e tinha sua própria família. No entanto, eles não sabiam que nunca mais veriam a querida Giovanella, como era chamada na família. Ela, junto com sua família, alguns anos depois também teve que partir em emigração e escolheu a França como destino. A jornada de Francesco Piazzetta, aos 51 anos de idade, e de seus quatro filhos menores, todos nascidos em Pederobba, Giovanni Battista, Noè, Colomba e Augusta, para o Brasil, começou na estação ferroviária de Cornuda, uma pequena cidade situada na região do Veneto, na Itália, a cerca de 8 km de Pederobba e ainda percorrida pela ferrovia que leva trens de Belluno. Eles partiram com antecedência e a pé, em uma tarde úmida e fria do início de dezembro, cada um levando consigo uma mala com roupas e alguns pequenos sacos de mantimentos preparados em casa para enfrentar a longa viagem de trem. Francesco e seus filhos chegaram à estação ferroviária em silêncio durante todo o percurso, muito preocupados e nervosos, mas cheios de expectativas, ansiosos para embarcar em sua jornada para o porto de Gênova. Apesar da preocupação com o desconhecido, Francesco estava entusiasmado com a ideia de deixar a Itália e começar uma nova vida em um país estrangeiro, mas ao mesmo tempo todos estavam muito tristes por deixar sua terra natal e as pessoas que amavam. A estação ferroviária de Cornuda era muito pequena, assim como a cidade em si, pouco movimentada naquela hora do dia, com uma ampla plataforma bem construída de onde os passageiros embarcavam nos trens. Francesco e seus filhos se sentaram em um banco de madeira na sala de espera espartana, esperando a chegada do trem que os levaria a Gênova e observando as poucas pessoas ao seu redor, muitas das quais conhecidas, emigrantes como eles. Alguns pareciam nervosos com a viagem e a separação, enquanto outros pareciam calmos e pensativos, aguardando sua vez. Finalmente, pouco depois das oito horas da noite, o trem chegou pontualmente e eles puderam embarcar no vagão que os levaria a Gênova. Encontraram seus lugares e se acomodaram, observando pelas janelas as paisagens que passavam. O trem passou por Ferrara, Bolonha, onde fez uma parada mais longa, seguindo então para Modena e Parma. Durante o trajeto, conseguiram ver apenas brevemente os vilarejos, as cidades e os campos verdes, com poucas folhas amarelas restantes devido à chegada do inverno. Esta era a primeira viagem deles de trem e nunca tinham estado tão longe de casa. Durante a viagem, conversaram um pouco, com o pai explicando aos filhos suas expectativas para a nova vida no Brasil e compartilharam suas preocupações e medos. Francesco explicou aos seus filhos que a viagem seria difícil, especialmente a de navio, através da imensidão do oceano, que nenhum deles conhecia, mas que eles deveriam ser fortes e corajosos. Ele também disse que a vida no Brasil seria muito diferente da vida na Itália, mas que eles se adaptariam em breve e teriam sucesso. Dormiram pouco, mal acomodados em assentos desconfortáveis da classe econômica. Após treze horas de viagem, o trem finalmente chegou à estação ferroviária de Gênova, fazendo muito barulho enquanto parava para permitir que mais passageiros embarcassem, quase sempre famílias de emigrantes como eles, que estavam deixando a Itália. Pensaram que talvez alguns deles tivessem o mesmo destino e viajariam no mesmo navio. Francesco e seus filhos desceram do trem entre o barulho e a agitação da cidade portuária naquela manhã cedo. O porto era enorme, com barcos e grandes navios ancorados em todas as direções. Eles procuraram e avistaram imediatamente o navio Adria, que não era um dos maiores, que os levaria ao Brasil, e sentiram imediatamente uma mistura de emoções. Curiosamente, caminharam pelo porto, observando dezenas de estivadores com seus carrinhos se movendo rapidamente, transportando grandes caixas de mercadorias. O Adria já estava atracado no cais e ouviram os gritos dos marinheiros que se preparavam para a viagem. Quando chegou a hora da partida no final da tarde, eles finalmente se dirigiram ao portão de embarque do navio que os levaria ao Novo Mundo e, com determinação, depois de entregar suas bagagens, passagens e passaportes, verificados tanto pelos funcionários do porto quanto pelos da companhia de navegação, subiram pela longa escada inclinada, sustentada por cordas grossas, ao lado do navio, e embarcaram sem muitos problemas. Os alojamentos eram bastante pequenos, com corredores estreitos, e eles teriam que compartilhar a cabine com outros passageiros, sem muita privacidade, mas ainda assim estavam felizes por estarem a bordo, ansiosos para começar a grande aventura. A viagem pelo mar seria longa e desafiadora, mas estavam determinados a alcançar o tão sonhado destino, o Brasil. Com um longo e grave apito, o Adria começou a se afastar lentamente do cais e gradualmente viram a costa italiana desaparecer no horizonte, provocando um frio na barriga. A cada dia, eles se aproximavam mais do Novo Mundo e das oportunidades que ele oferecia. Finalmente, após algumas semanas no mar, sem incidentes, eles chegaram ao porto do Rio de Janeiro, no Brasil. Desembarcaram e foram recebidos pelos funcionários do porto e levados ao Albergue dos Imigrantes, onde, após exame médico de rotina, foram acomodados aguardando o próximo pequeno barco que os levaria ao destino escolhido, o porto de Paranaguá no estado do Paraná. Depois de alguns dias de espera, finalmente receberam o aviso de embarque, desta vez em um pequeno barco chamado Rio Negro, que os levaria, junto com centenas de outros imigrantes italianos, de Rio de Janeiro a Paranaguá, mas o barco continuaria a viagem até Rio Grande do Sul. Eles haviam deixado a Itália, um país com sérios problemas econômicos, em busca de uma vida melhor no Brasil, e esperavam que essa nova terra lhes oferecesse novas oportunidades. De Paranaguá, seguiram para Curitiba, percorrendo a subida da Serra do Mar até Curitiba, ao longo do espetacular percurso ferroviário inaugurado apenas cinco anos antes. Foi uma viagem de algumas horas, com duas ou três paradas, cheia de paisagens deslumbrantes de uma floresta tropical intocada, com várias pontes de ferro e abismos profundos, já que Curitiba está a quase 1000 metros acima do nível do mar. Na capital do Paraná, com as economias trazidas da Itália, arrecadadas com a venda da casa e de alguns outros bens, Francesco comprou um terreno com uma pequena casa de madeira, na ainda nova colônia Dantas, onde já moravam desde o seu estabelecimento, apenas dois anos antes, várias outras famílias de imigrantes provenientes da região do Veneto como eles, algumas até conhecidas e parentes. Ele esperava que seus filhos pudessem ter acesso à educação e que ele pudesse encontrar trabalho como carpinteiro, o que garantiria uma vida mais confortável. Francesco estava determinado a construir uma nova vida na cidade e quando chegaram à Colônia Dantas, ficaram surpresos com o clima fantástico e com o progresso da capital paranaense. Era realmente um Novo Mundo, o que Francesco sempre sonhara. A cidade era rica e organizada, bem desenvolvida para a época, com muitos recursos e oportunidades de trabalho. Com o tempo, Francesco e seus filhos se adaptaram à vida na Colônia Dantas, que progredia rapidamente e, devido à proximidade com a capital, estava se tornando cada vez mais um bairro populoso, como de fato aconteceu alguns anos depois, quando foi chamada de Água Verde. Rapidamente fizeram amizade com outras famílias italianas residentes na área e se estabeleceram definitivamente na comunidade, participando ativamente de eventos sociais e atividades comunitárias locais, como a construção da nova igreja. Francesco, habilidoso carpinteiro e entalhador, logo encontrou trabalho, abrindo uma pequena oficina com o filho mais velho, enquanto os mais jovens começavam a frequentar a escola. Embora a vida ainda reservasse grandes desafios, Francesco e seus filhos estavam felizes por terem tomado a decisão de emigrar para o Brasil. Sentiam que lá tinham muitas mais oportunidades, que estavam no caminho certo para uma vida melhor neste grande país. Francesco Piazzetta faleceu em 30 de novembro de 1922, em Curitiba, aos 83 anos de idade, deixando os quatro filhos, todos já casados, e também vários netos.