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sexta-feira, 1 de maio de 2026

As Montanhas que Ficaram para Trás


As Montanhas que Ficaram para Trás

Uma história de coragem e esperança


Em uma manhã fria de março de 1877, o sino da pequena igreja da localidade denominada Pullir, uma parte de Cesiomaggiore, na província de Belluno, ecoava pelas montanhas vizinhas. Era um som familiar para Theresia, uma mulher de 40 anos, cujos dias começavam antes do sol nascer e terminavam ao cair da noite, com as mãos calejadas pelo trabalho na lavoura da canapa e o olhar firme de quem já havia enfrentado muitas provações.

Theresia era viúva havia dois anos. Seu marido, Pietro Zanet, um carpinteiro muito conhecido, respeitado pela sua habilidade com a madeira, sucumbira a uma pneumonia no rigoroso inverno de 1873. Desde então, recaiu sobre Theresia a responsabilidade de sustentar a família, com a ajuda dos filhos mais velhos, enquanto os mais novos ainda dependiam completamente de seus cuidados. As idades variavam entre 2 e 20 anos, e cada um contribuía como podia, mas o peso das decisões e da condução da casa permanecia sobre seus ombros. A fome rondava sua pequena moradia de pedra, enquanto as colheitas, castigadas por chuvas intensas e invernos rigorosos, eram insuficientes para alimentar a família.

A vida em Pullir era dura, mas as histórias de terras férteis no Brasil traziam um lampejo de esperança. Corriam boatos de que famílias inteiras haviam recomeçado em um lugar onde a terra era abundante e o trabalho recompensado com prosperidade. Alimentada por esses relatos e pelo desejo de garantir um futuro melhor para seus filhos, Theresia tomou uma decisão corajosa: deixaria Pullir com os filhos e seguiria para o Brasil.

A jornada até o porto de Gênova começou a pé e em carroça, enquanto Theresia e os filhos percorriam o trecho inicial até a estação de trem mais próxima. Daí em diante, embarcaram no trem, que os levou em uma longa e exaustiva viagem de várias horas através das montanhas e planícies italianas. O cansaço era evidente, mas a expectativa de um futuro melhor alimentava suas forças. Quando nas primeiras horas da manhã chegaram ao porto, depararam-se com o tumulto de famílias ansiosas, crianças chorando, vendedores ambulantes abordando insistentemente os recém chegados, carregadores atarefados levando grandes caixas de madeira e marinheiros sem paciência  gritando ordens. O navio que os levaria ao Brasil, uma embarcação de casco escuro chamado Colombo, parecia imponente, mas nada acolhedor.

A travessia do Atlântico revelou-se um teste de paciência e resistência. Amontoados nos porões do navio, os passageiros lidavam com o cheiro forte de carvão, fumaça, corpos suados, com a comida escassa e os enjôos constantes. Theresia, porém, mostrava-se incansável. Entre as crianças que adoeciam e os ânimos que se exaltavam, ela mantinha a calma, entoando velhas cantigas italianas e contando histórias das montanhas Dolomitas que rodeavam Pullir para distrair os filhos e os companheiros de viagem.

Na terceira semana de viagem, uma forte tempestade, que surgiu repentinamente, abateu-se sobre o navio. Ondas gigantescas balançavam a embarcação, enquanto a água invadia os porões. Theresia abraçou seus filhos e rezou com fervor, prometendo que, se sobrevivessem, dedicaria sua vida ao trabalho e à fé. O Colombo valentemente resistiu, mas os dias que se seguiram foram marcados pelo medo e pelo silêncio.

Após semanas no mar, enfrentando tempestades e o cansaço da longa travessia, o navio finalmente atracou no movimentado porto do Rio de Janeiro. O espetáculo das águas calmas da Baía de Guanabara contrastava com o caos de marinheiros, bagagens e imigrantes que desembarcavam, cada qual carregando sonhos e incertezas. Theresia e os filhos passaram pelo processo de regularização dos passaportes, aguardando ansiosamente a continuidade da viagem. Dois dias depois, embarcaram em outro navio, o Maranhão, um vapor costeiro menor que o Colombo que os levaria rumo ao sul do Brasil. A bordo, compartilharam histórias com outros imigrantes e observaram as mudanças na paisagem costeira, que alternava entre pequenas vilas e vastas áreas de mata atlântica.

Finalmente, depois de alguns dias, desembarcaram na cidade portuária de Desterro, hoje conhecida como Florianópolis, no estado de Santa Catarina. Era um novo marco em sua jornada: deixavam para trás o oceano e se preparavam para a etapa final, rumo ao coração das terras de colonização italiana. A partir de Desterro, Theresia e os filhos continuaram sua jornada rumo ao interior, enfrentando um percurso desafiador. Seguiram em carroças e a pé, cruzando montanhas íngremes, vales cobertos por densa mata atlântica e rios caudalosos que exigiam travessias improvisadas em balsas sobre troncos. Cada quilômetro percorrido era uma prova de resistência e determinação, mas também um passo mais próximo do novo lar.

Os dias de viagem eram marcados pelo cansaço físico, mas também pelo senso de comunidade que se formava entre os grupos de imigrantes que compartilhavam a mesma rota. À noite, reuniam-se ao redor de fogueiras improvisadas, onde compartilhavam histórias, rezavam e sonhavam com as terras que cultivariam.

Finalmente, após duas semanas de deslocamento, chegaram à região de Criciúma, em Santa Catarina, onde foram recebidos por representantes da colônia italiana local. Como parte do programa de colonização, Theresia recebeu um lote de terra, um terreno coberto por mata virgem que seria o ponto de partida para a construção de sua nova vida. Com a ajuda dos filhos, começou o árduo trabalho de derrubar árvores, abrir espaço para uma pequena casa e preparar o solo para o plantio.

A vida naquele início foi marcada por desafios incessantes: a adaptação ao clima úmido, a necessidade de aprender novas técnicas agrícolas e a solidão do isolamento, já que as famílias vizinhas estavam espalhadas por quilômetros. Mesmo assim, Theresia sentiu o coração aquecido pela esperança ao ver o primeiro pedaço de terra cultivado e os primeiros brotos surgindo sob o sol brasileiro. Para ela, aquele era o início de um futuro promissor, um recomeço construído com suor, fé e resiliência. 

O trabalho era árduo, mas Teresa não se deixava abater. Com a ajuda dos filhos mais velhos, construiu uma precária casa, na verdade um refúgio feito com tábuas, galhos e coberta por folhas de palmeiras e depois de limpar uma parte do terreno com a ajuda dos filhos maiores, iniciou o plantio de milho e feijão. A terra era generosa, mas os desafios persistiam: a língua era um obstáculo, o isolamento era uma constante, e a saudade de Pullir e das suas amadas montanhas era profunda.

Mesmo assim, Theresia cultivava a esperança. Com um espírito decidido, organizou reuniões com outros vizinhos, compartilhando conhecimentos e fortalecendo os laços comunitários. Aos poucos, viu seus filhos crescerem e contribuírem para a construção de uma nova vida. O mais velho, Carlo, tornou-se um comerciante respeitado, enquanto os mais jovens aprenderam a trabalhar na terra com habilidade e dedicação.

Theresia faleceu em 1920, aos 83 anos, em sua casa, cercada por filhos, noras, netos e bisnetos. Deixou um legado de coragem, trabalho e resiliência. Seus descendentes, orgulhosos de suas raízes italianas, mantêm vivas até hoje as tradições belunesas, enquanto celebram a terra que os acolheu e onde prosperaram.

Na praça central de Criciúma, ergue-se um monumento em bronze que homenageia os pioneiros da cidade. A obra, de linhas simples e austeras, retrata homens e mulheres de diferentes idades, representando as famílias que enfrentaram o desconhecido em busca de uma nova vida. Entre eles, destaca-se uma figura feminina segurando uma enxada, com o rosto erguido em direção ao horizonte, simbolizando a resiliência e a esperança que moviam aqueles que desbravaram terras e abriram caminhos.

Na base do monumento, uma placa gravada com os nomes de algumas das famílias que participaram da construção da comunidade local eterniza a memória dos primeiros colonos. Entre os nomes listados está o de Theresia Zanet, que, ao lado de seus filhos, contribuiu para transformar a região em um núcleo próspero. Embora o monumento não individualize histórias, ele simboliza a força coletiva daqueles que moldaram a história de Criciúma. Este tributo, silencioso e comedido, reflete a essência dos pioneiros: pessoas comuns que, com coragem extraordinária, superaram as adversidades de um novo mundo. Para os descendentes e visitantes, é uma lembrança tangível do preço do progresso e da força dos laços comunitários, tecida pelos que vieram antes.


Nota do Autor

Este texto é um fragmento do livro "As Montanhas que Ficaram para Trás" do mesmo autor. Embora os personagens apresentados sejam fictícios, a essência da narrativa baseia-se em eventos reais vivenciados por inúmeros imigrantes italianos que, com coragem e determinação, deixaram sua terra natal em busca de esperança no Brasil. 

Escrevi esta obra como uma forma de homenagem aos nossos antepassados. Eles enfrentaram o desconhecido, desafiaram a adversidade e, com trabalho incansável, ajudaram a construir as bases de tantas comunidades que hoje prosperam em nosso país.

A história de Theresia é também a história de milhares de homens e mulheres que trouxeram consigo mais do que sonhos de um futuro melhor. Trouxeram valores, tradições, fé e, acima de tudo, a prova de que a força do espírito humano é capaz de superar qualquer obstáculo.

Que este relato sirva para honrar sua memória e para lembrar a todos nós da importância de preservar e valorizar as raízes que nos moldam. O legado desses imigrantes é imensurável e vive não apenas na paisagem transformada, mas também na herança cultural, na gastronomia, nas celebrações e, sobretudo, no exemplo de trabalho e resiliência que deixaram para as gerações futuras.

Dedico este livro a todos os descendentes de imigrantes italianos que, como eu, sentem orgulho de suas origens e de tudo o que nossos antepassados conquistaram. Que nunca esqueçamos de onde viemos e de quanta força foi necessária para que estivéssemos aqui hoje.

Com profundo respeito e gratidão,

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Sobrenomes Pioneiros em Barra Bonita SP

 


Sobrenomes Italianos em 

Barra Bonita SP


Abruzzi  

Aiello  

Alponti  

Antonangelo  

Antonelli  

Ballan  

Balbo  

Barduzzi  

Bellini  

Bellei  

Bérgamo  

Bettini  

Blasizza  

Bocato  

Boldo  

Boarini  

Borgui  

Bozzi (Rigon)  

Bressan  

Bressanim  

Brunelli  

Caetano  

Cagnotti  

Capelossa  

Cardia  

Casagrande  

Casale  

Castelari  

Cestari  

Chiarato  

Constanzo  

Dal Corso  

Dalla Costa  

De Conti  

De Luca  

De Marchi  

Dias  

Ereno  

Fagá  

Fantin  

Fantinatti  

Feltrin  

Ferrazolli  

Ferrari  

Finatto  

Frollini  

Fuim  

Galhardi  

Gatti  

Giacomini  

Giroto  

Grizzoni  

Guedin  

Maffei  

Marcon  

Marinelli  

Mascaro  

Massenero  

Mori  

Mozarle  

Nardo  

Osti  

Parezan  

Patuzzo  

Pavani  

Perassoli  

Petri  

Pezente  

Piva  

Pellini  

Pizzo  

Polatto  

Pollini  

Pozebon  

Reginato  

Ribeiro de Andrade  

Ricci  

Rizzatto  

Rossi  

Sabbatini  

Sacco  

Salve  

Santilli  

Santinello  

Sargentim  

Scalissa  

Scapin  

Scarpela  

Selleguin  

Simionatto  

Simoncini  

Spaulonci  

Sponchiatto  

Stangherlin  

Stramantinolli  

Stringheta  

Testa  

Terrazan  

Tozatto  

Ungaro  

Ursolino  

Vechiatti  

Veghini  

Vetorazzo  

Victorino de França  

Zaffani  

Zanella  

Zerlin  

Ziglio  

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

El Legado de i Pionieri


 

El Legado dei Pionieri


A la fine del sècolo XIX, el Brasile l’era ‘na nassion in fermento, con le sue tera vaste e inesplorà che 'spetava mani che le ghe avèa da trasformarle in un mosaico de culture, tradission e speranze. In sto cuor de sto paese in transformassion, na zente de emigranti italiani i sbarchèa, portando con lori pí de che valisie e documenti. I portèa sogni, resiliensa e un desìderio ardente de rifar na vita nova.

Giuseppe Belluzzi l’era uno de sti pionieri. Nato in un pìcolo paeseto tra le colìne de la Lombardia, el gà conossesto la povertà e la durèssa de la vita ´ntei campi. Quando che le lètare de un cugin lontan, oramai sistemà in Brasile, le riva, piene de stòrie de tere fèrtili e oportunità sensa fine, Giuseppe el ghe vedea na porta che se spalancava verso un futuro novo. Con la so zòvena móier, Maria, e i so do fiòi ancor pìcolini, el làssia via tuto quel che conossèa e l’imbarcà in un viàio verso l’incògnito.

El viàio el ze stà longo e faticoso, ma l’arrivo al porto de Rio de Janeiro la segnà l’inìsio de 'na nova era. Le prime impression del Brasile le ze stà 'na roba sconvolgente: el caldo sofocante, la vegetassion esuberante e ‘sta lèngoa strana che galegiava nel’aria come ‘na mùsica esòtica. Però, Giuseppe el no se gà lassà demoralisà. El savèa che la sopravivensa de la so famèia dependèa da la so capassità de se adatar e de conquistar el so posto ´nte sta tera nova.

I Belluzzi lori i ze ´ndà ´ntel interior de lo stato de São Paulo,  ndove vaste estenssion de tera le ‘spetava de vegner desbravà. Le condisioni le zera precàrie, le case vècie e maladà de i ex-sciavi, qualcuna de lori improvisà e mala conservà, e le distanssie enorme da far fin a le piantagioni de café. Però, la promessa de libartà, de posseder la pròpria tera e de costruir un futuro mèio par i so fiòi l’era ‘n incentivo potente. Giuseppe e Maria i lavorèa sensa fermarse, coltivando la tera, piantando radici, sia fìsiche che emossionali, in sta nova pàtria. Lori i savea che par realisar i soi sòni de proprietà, de èsser paroni, i zera bisogno de risparmiar tuti i guadagni. 

I primi ani i ze segnadi da sfide enormi. L’isolamento, le malatie tropicai, la mancansa de risorse e la nostalgia de so parenti lassà ´ntel’Itàlia i minassiava continuamente la determinassion dei pionieri. Ma, pian pianin, le colònie italiane le scomincià a fiorir ´ntele pìcole sità che circondea la "fazenda de café" . I emigranti no solo i coltivava la tera, ma i gà portà con lori anca el so sapere, le so tradission e ‘na ètica del laor che se integrava de presto con la società brasiliana.

Giuseppe, che el zera sempre stà ‘n lider intel so paeseto natale, el diventò ‘na figura sentrale ne la comunità italiana de ‘sta regione. El ghe aiutò a fundar ‘na scola, dove che i fiòi i imparava sia el portoghese che l’italiano, assicurando che la pròssima generassion la fusse bilìngue e biculturaie. El fù anca uno dei prinssipali sostenidori de la construssione de ‘na cesa, che diventò el cuor spiritual e social de la colònia.

Col passar del ani, la presenza italiana cominciò a farse sentir in tuto el territòrio. I italiani i introdusse nuove tècniche agrìcole, che aumentò la produtividà dei campi de mais e altri coltivi. Lori i ze contribuì anca a diversificar l’economia locae, portando abilità artisanali, come la produssion de vin, che de presto la ze diventà sinónimo de qualità ´nte la zona.

Ma el legado de i pionieri taliani no se limitava a l’agricultura o l’artisianato. Lori i gà lassà anca ‘na marca indelèbile su la cultura e l’identità brasiliana. La mùsica, la cussina, e le feste tìpiche italiane le cominciò a mescolarse co le tradission brasiliane, creando ‘na cultura nova, ìbrida, che la rifletea la diversità e la richessa del paese.

Giuseppe Belluzzi, adesso un omo de età avanssada, el ghe guardava con orgòglio el progresso de la so famèia e de la so comunità. I so fiòi e i so nevodi, i ze integrà ´ntela sossietà brasiliana, lori i zera el testimónio vivo del sussesso de la so scelta de emigrar. La lèngoa vèneta, ancora parlada in casa, la se mescolava con el portoghese, mentre che le nuove generassion i abrassava le so radici dòpie con naturalità.

Verso la fine de la so vita, Giuseppe el savèa che el legado dei pionieri taliani in Brasile l’andava ben oltre la semplice sopravivensa. Lori i gavea aiutà a plasmar l’identità del paese, a enrichir la so cultura e a fortificar la so economia. El Brasile, in gran parte, el zera quel che l’era anca par causa del laor duro, de la resiliensa e del spìrito comunitàrio de quei emigranti che, come lui, gavea lassà tuto indrio par sercar ‘na vita nova.

Maria, che l’era sempre stà al so fianco, la ze el sìmbolo de la so forsa interior. Insieme, lori i gavea afrontà e superà sfide imaginàbili. Le so man, induride dal laor, gavea moldà el futuro de i so fiòi e de le generassion future. Giuseppe el savèa che el so nome e quelo de la so famèia i sarìa per sempre intressiadi ne la stòria del Brasile, no solo come pionieri, ma come veri fondadori de ‘na nova società.

In el so leto de morte, circondà da la so numerosa famèia, Giuseppe el ghe susurrò le so ùltime parole: "El Brasile l’è adesso casa nostra. No ve scordé mai de ndove che noaltri semo vignesti, ma ricordéve sempre de quel che gavemo costruì qua." E con ‘ste parole, el ghe serò i oci par l’ultima volta, savendo che el so legado el viverìa in ogni campo coltivà, in ogni festa italiana selebrà e in ogni parola pronunssià da i so descendenti, sia in italiano che in portoghese.

El legado de i pionieri italiani, come Giuseppe Belluzzi, no el ze solo ´ntela tera che gavea coltivà, ma anca ´ntele ánime che lori gà moldà. Lori i gà piantà i semi de ‘na nova nasione, ‘na nasione che fiorirìa con la richessa de la diversità e con la forsa del laor instancà de quei che gavea scelto el Brasile come la so nova casa. E quela, sopratuto, l’era la pì grande de le contribussion: la creassion de ‘na società che, in la so essensa, la ze ‘n riflesso del spìrito indomàbile de i emigranti che la gà fondà.




sábado, 28 de setembro de 2024

Os Sonhos dos Emigrantes


 

Os Sonhos dos Emigrantes

A névoa suave da manhã cobria o porto de Gênova, onde o navio Esperança estava ancorado, preparando-se para zarpar rumo ao Brasil. Entre as sombras e os raios de sol que timidamente cortavam a neblina, um grupo de famílias italianas se reunia, carregando nas mãos não apenas malas, mas também o peso de seus sonhos e expectativas. Cada um dos emigrantes trazia em seus olhos o reflexo de um futuro idealizado, uma terra onde a fome, a miséria e as incertezas seriam substituídas pela abundância e pela dignidade.

Giuseppe Rossi, um agricultor de trinta anos, apertava a mão de sua esposa, Maria, enquanto seus dois filhos, Luigi e Clara, olhavam curiosos para o gigante de madeira que logo os levaria para uma nova vida. Giuseppe nascera e crescera na pequena aldeia de Castelfranco Veneto, onde o solo agora infértil e a falta de trabalho tornaram insuportável a luta diária pela sobrevivência. Em noites de insônia, ele frequentemente ouvia histórias de brasileiros prósperos que haviam sido contadas por viajantes e padres, promessas de uma terra onde tudo crescia, onde o trabalho era recompensado e onde os filhos poderiam sonhar sem limites.

A bordo do Esperança, os dias se arrastavam. A brisa do mar, que inicialmente era um alívio para os emigrantes, tornara-se uma constante lembrança da distância que crescia entre eles e a Itália. As noites eram preenchidas por cantos tristes, lamentos que ecoavam no porão do navio, onde os passageiros de terceira classe estavam confinados. Mas mesmo em meio às dificuldades da viagem, o sonho do Brasil permanecia vivo, alimentado pelas histórias que circulavam entre as famílias.

A primeira visão do Rio Grande do Sul foi uma miragem distante. O litoral recortado, com suas montanhas verdes e florestas densas, parecia prometer tudo o que haviam esperado. Giuseppe apertou a mão de Maria com força, e ambos trocaram um olhar cheio de esperança. “Aqui, construiremos uma nova vida”, pensou ele, certo de que aquela era a terra onde seus filhos cresceriam com dignidade e fartura.

A realidade, porém, era menos indulgente do que as histórias contadas na Itália. Assim que desembarcaram em Porto Alegre, foram direcionados para uma colônia na serra gaúcha, onde a promessa de terras férteis os aguardava. Mas ao chegar, os Rossi se depararam com uma floresta impenetrável, onde o solo virgem ainda clamava por ser desbravado. As árvores gigantescas precisavam ser derrubadas, os troncos arrastados, e os campos preparados para o plantio. As primeiras semanas foram de exaustão física e mental. O isolamento era total; a família mais próxima vivia a quilômetros de distância, e o médico mais próximo estava a dias de viagem.

Mas Giuseppe não desanimou. Ao lado de Maria, que nunca deixava de sorrir, mesmo nas horas mais difíceis, ele começou a trabalhar. As mãos calejadas, acostumadas à terra seca da Itália, aprenderam a lidar com o barro e as pedras do novo mundo. Luigi e Clara, ainda crianças, também ajudavam como podiam, colhendo frutas silvestres e aprendendo com os imigrantes vizinhos a língua portuguesa.

O primeiro inverno no Brasil foi uma prova de fogo. O frio, que eles nunca imaginariam encontrar tão ao sul, adentrava pelas frestas da madeira mal encaixada da pequena casa que haviam construído. Muitos dos imigrantes sucumbiram às doenças, à solidão e ao desespero. Giuseppe temia que sua própria família fosse também tragada por essa onda de sofrimento. Mas a fé em Deus e o amor que compartilhavam os mantiveram fortes.

Então, na primavera seguinte, o milagre aconteceu. A primeira colheita, ainda que modesta, encheu seus corações de alegria. O trigo dourado, que dançava ao vento, simbolizava não apenas o sustento físico, mas a concretização de um sonho. Os Rossi, como muitos outros, haviam finalmente encontrado seu lugar na nova terra. E com o trigo e o milho, vieram as parreiras, os vinhedos, o pão e o vinho, símbolos de uma cultura que não haviam abandonado, mas adaptado e enraizado naquele solo distante.

Os anos passaram, e as colônias italianas na serra gaúcha floresceram. Cidades como Caxias do Sul e Bento Gonçalves surgiram, erguidas pelo trabalho árduo dos imigrantes. Giuseppe, já com os cabelos grisalhos, olhava para seus filhos crescidos, agora donos de suas próprias terras, e sentia o coração aquecer. A Itália estava longe, em outro continente, mas o Brasil se tornara a sua pátria, onde seus netos cresceriam, falando português e italiano, carregando no sangue a força e a resiliência dos primeiros colonos.

No final, os sonhos dos emigrantes italianos não foram apenas expectativas de uma vida melhor; tornaram-se a realidade de um novo começo, uma nova cultura, e um novo Brasil. Giuseppe, Maria e seus descendentes são testemunhas vivas de que, mesmo em meio às dificuldades e aos desafios, a fé e o trabalho podem transformar a terra estrangeira em um lar, onde os sonhos são plantados e colhidos, geração após geração.



segunda-feira, 28 de agosto de 2023

Solidão nas Colônias: O Chamado Desatendido


 


Solidão nas Colônias: 
O Chamado Desatendido


No silêncio das colônias distantes, 
Imigrantes sofrem, almas sedentas. 
Católicos fervorosos, anseiam por conforto, 
Mas, padres e igrejas, são miragens sombrias.

Solidão paira no ar, como névoa densa, 
Ausência de assistência, uma ferida aberta. 
Corações ansiando por guias espirituais, 
Perdidos em terras estrangeiras, sem consolo.

Nessas terras gaúchas, de fé inabalável, 
O lamento ressoa nas noites estreladas. 
O chamado desatendido, angústia persistente, 
Nas almas dos pioneiros, ecoa eternamente.


de Gigi Scarsea
erechim rs



sexta-feira, 30 de junho de 2023

Desbravadores da Terra: A Lista das Famílias Italianas Pioneiras em Vale Vêneto, RS (1878-1888)


Relação das Famílias Pioneiras que Colonizaram Vale Vêneto vindas da Itália entre 1878 e 1888


BALCONI

BALDISSERA

BASSO

BEVLACQUA

BISOGNIN

BOLZAN

BONFADA

BORANGA

BORDIGNON

BORTOLAZZO

BORTOLUZZI

BRONDANI

CAGLIARI

CANAZZA

CARLOTTO

CASASSOLLA

CERETTA

CHIARINOTTO

CILIATO

COPETTI

CREAZZO

DALMASO

DAL SANTO

DANIEL

DOTTA

DOTTO

DRUZIAN

FERIGOLO

FILIPETTO

FOLETTO

FORGERINI

FORZIN

GIACOMINI

GRIGOLETTO

IOP

LODERO

LOVATTO

MARCHESAN

MARCUZZO

MARIN

MARIO

MELLOTTO

MENEGHEL

MISSAO 

MORO

MISSAN

NOGARA

PASQUATIN

PASQUATINI

PARCIANELLO

RIVETA

RIZZOLATTO

POZZOBON

RIGHI

RORATTO

ROSSI

ROSSO

SARTORI

SBIZIGO

STEFANEL

STROILI

TONDO

TRONCO

VARASCHIN

VENDRUSCULO

VENTURINI

VERNIER

VIGNOTTO

VIZZOTTO

WEBER

ZAGO

ZANINI