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sábado, 24 de outubro de 2026

Listas de Passageiros de Navios: Um Caminho Para Encontrar Nossos Imigrantes Italianos


Listas de Passageiros de Navios: Como Encontrar Imigrantes Italianos e Reconstruir Histórias Familiares

“Uma lista de passageiros pode começar como uma relação de nomes e terminar como uma janela aberta para a história de uma família.”

Poucos documentos despertam tanta expectativa em quem pesquisa seus antepassados italianos quanto uma lista de passageiros de navio. Depois de procurar durante meses — e às vezes anos — certidões, registros paroquiais, documentos familiares e informações sobre a vida do ancestral na Itália e no Brasil, surge finalmente uma pista: o nome do navio, a data da chegada, o porto de desembarque e, quem sabe, o nome do imigrante. É nesse momento que aparece uma pergunta quase inevitável: quem mais estava naquele navio?
Se descobrimos, por exemplo, que nossos bisavós chegaram ao Brasil a bordo do Colombo, com desembarque no Rio de Janeiro em 7 de novembro de 1894, a curiosidade imediatamente ultrapassa a história da própria família. Quem eram os outros passageiros? Havia parentes entre eles? Vieram pessoas da mesma comunidade italiana? Algumas famílias já se conheciam antes da partida? Outras seguiram depois para o mesmo destino no Brasil?
Essas perguntas não são apenas fruto da curiosidade. Para quem pesquisa genealogia e imigração, elas podem abrir caminhos que nenhum documento isolado seria capaz de mostrar.

Uma lista de passageiros é muito mais do que uma relação de nomes

Hoje, quando milhares de documentos históricos podem ser encontrados digitalmente, é fácil esquecer o quanto uma lista de passageiros pode representar para uma pesquisa familiar. Dependendo do período, do porto e do tipo de documento, ela pode registrar nomes, idades, nacionalidade, profissão, composição familiar, destino e, em alguns casos, informações sobre a procedência do imigrante.
Mas seu valor mais extraordinário talvez esteja em outro lugar. Ela coloca pessoas diferentes dentro de uma mesma história.
Um ancestral que aparece sozinho em uma certidão pode surgir, na lista do navio, acompanhado da esposa, de filhos, de irmãos ou de outras pessoas que até então não faziam parte da pesquisa. Uma família que parecia ter emigrado sozinha pode aparecer viajando ao lado de outra. Pessoas procedentes da mesma comunidade podem revelar uma rede de relações que continuaria existindo depois da chegada ao Brasil.
Por isso, uma lista de passageiros não deve ser lida apenas como uma tabela. Ela é também um documento sobre relações humanas.

O navio como ponto de encontro de famílias

Essa é uma das razões pelas quais recomendo que uma pesquisa genealógica não se limite ao próprio ancestral. Quando encontrar uma lista de passageiros, procure também quem viajava com ele.
Observe as idades. Compare os destinos. Identifique grupos familiares. Procure pessoas provenientes da mesma comunidade. Verifique se alguns daqueles passageiros reaparecem posteriormente em documentos brasileiros.
Essa comparação pode produzir pistas extraordinárias. Uma pessoa que viajou na mesma embarcação pode aparecer anos depois em um registro de casamento. Uma família que fez a mesma viagem pode surgir novamente em documentos de colonização. Um passageiro que parecia não ter qualquer relação com seu ancestral pode tornar-se padrinho de um filho dele ou testemunha em algum documento.
A lista de passageiros pode ser o primeiro indício de uma rede de parentesco, amizade, vizinhança e solidariedade que continuou existindo depois do desembarque.
Para ampliar a investigação, consulte também o artigo Como Encontrar Registros de Italianos que Imigraram para o Brasil. Ele apresenta outras fontes documentais que podem ajudar a reconstruir a trajetória de um imigrante desde a chegada ao país até o estabelecimento da família.

Antes de procurar o navio, procure compreender o caminho da imigração

Outro erro bastante comum é imaginar que todos os imigrantes italianos chegaram ao Brasil pelo mesmo porto e seguiram imediatamente para o destino definitivo. A realidade foi muito mais complexa.
Durante as décadas de maior imigração, especialmente entre o final do século XIX e o início do século XX, os imigrantes chegaram por diferentes portos brasileiros e, muitas vezes, fizeram mais de uma etapa da viagem antes de alcançar a região onde finalmente se estabeleceriam.
O Rio de Janeiro teve enorme importância nesse processo. Muitos imigrantes que chegavam ao porto carioca não permaneceriam na cidade. Dependendo do contrato e do destino, poderiam seguir por ferrovia para Minas Gerais ou embarcar novamente em navios de cabotagem rumo a outras regiões do país.
Santos, por sua vez, foi fundamental para a imigração destinada a São Paulo. De Santos, muitos imigrantes seguiam por ferrovia para o interior paulista, e a Hospedaria de Imigrantes do Brás tornou-se um dos principais pontos de passagem dessa população.
Isso significa que a pesquisa não deve começar apenas com a pergunta: “Em que navio meu antepassado veio?” Às vezes, a pergunta mais importante é: “Por qual porto ele provavelmente entrou no Brasil e qual foi o caminho percorrido depois do desembarque?”
Essa mudança de perspectiva pode fazer toda a diferença.

Onde procurar listas de passageiros de imigrantes italianos

A grande diferença entre a pesquisa de algumas décadas atrás e a pesquisa genealógica atual está no acesso. Muitos documentos que antes exigiam cartas, telefonemas, visitas presenciais a arquivos ou leitura de microfilmes podem hoje ser consultados pela internet. Outros foram digitalizados apenas parcialmente e ainda exigem pesquisa presencial ou solicitação ao arquivo responsável.
Entre as instituições que merecem atenção estão o Arquivo Nacional, os arquivos públicos estaduais, arquivos municipais, centros de documentação, instituições ligadas à imigração e plataformas genealógicas que disponibilizam coleções digitalizadas.
Para quem pesquisa a imigração italiana no Brasil, também podem ser fundamentais os arquivos estaduais das regiões envolvidas na trajetória do imigrante, além das instituições especializadas na preservação da documentação de imigração.
O ponto mais importante é compreender que os caminhos de pesquisa mudaram. Um endereço eletrônico encontrado em uma publicação antiga pode não funcionar mais. Uma base de dados pode ter sido transferida para outra plataforma. Um serviço que antes exigia uma solicitação por carta pode hoje oferecer consulta digital.
Por isso, ao utilizar informações antigas de pesquisa, é sempre recomendável conferir diretamente o site atual da instituição responsável pelo acervo. Na pesquisa histórica, o documento pode continuar existindo, mas a maneira de chegar até ele pode ter mudado completamente.

E quando o imigrante chegou a Santos?

Durante muito tempo, encontrar documentação relacionada às chegadas a Santos era uma tarefa bastante trabalhosa. Pesquisadores dependiam de microfilmes, transcrições particulares e coleções que nem sempre estavam disponíveis de maneira simples.
Hoje a situação é muito melhor, embora ainda esteja longe de ser perfeita. O pesquisador deve consultar as coleções digitais disponibilizadas pelo Museu da Imigração do Estado de São Paulo, além de outras bases genealógicas que reproduzem ou indexam documentos históricos.
Também é importante lembrar que uma busca digital pode falhar mesmo quando o documento existe. A grafia de um nome pode ter sido alterada. A idade pode apresentar pequena diferença. Uma localidade pode ter sido registrada de outra maneira. Um erro de leitura ou de indexação pode impedir que determinado passageiro apareça em uma pesquisa automática.
Por isso, quando possível, é importante consultar também a imagem original do documento. Uma transcrição é extremamente útil, mas a imagem histórica pode conter informações que não foram corretamente transcritas ou indexadas.
Um exemplo disponível no próprio Portal A Emigração Vêneta é a lista de passageiros italianos do navio Caffaro, que chegou ao porto de Santos em 5 de outubro de 1891. Esse tipo de registro permite observar nomes, idades e grupos familiares e compreender como uma lista de passageiros pode servir de ponto de partida para novas descobertas.

A lista de passageiros pode não revelar a cidade de origem

Aqui está uma das maiores armadilhas para quem começa a trabalhar com listas de passageiros. Muitos pesquisadores imaginam que encontrar a lista significa finalmente encontrar a cidade italiana de nascimento do antepassado. Nem sempre.
Algumas listas fornecem informações bastante detalhadas. Outras registram apenas dados básicos. Em determinados documentos aparece a província; em outros, a localidade; em outros ainda, apenas a indicação genérica de procedência.
Além disso, o destino registrado no momento da chegada pode não ser o lugar onde a família efetivamente permaneceu. Por isso, uma lista de passageiros deve ser considerada uma peça do quebra-cabeça, não a solução inteira.
Se a localidade de origem não estiver ali, isso não significa que a pesquisa terminou. É nesse momento que entram outros documentos: registros de nascimento, casamento e óbito; registros paroquiais; documentos de naturalização; registros de hospedarias; listas de colonização; registros militares; documentos de propriedade; jornais antigos; correspondência familiar e, sobretudo, os documentos italianos.
Às vezes, a lista apenas confirma uma hipótese construída a partir de outras fontes. Em outras situações, ela fornece a pista que permite encontrar a próxima fonte.

Leia a lista inteira, não apenas o nome do seu antepassado

Há ainda uma recomendação que considero particularmente importante: não procure apenas o nome do seu ancestral. Quando encontrar uma lista de passageiros, leia-a.
Veja quem viajou antes e depois dele. Observe as idades. Compare as localidades. Identifique famílias que aparecem juntas. Anote as pessoas que possam ter alguma relação com sua pesquisa. Se houver dezenas ou centenas de passageiros, vale a pena salvar o documento e organizar as informações que parecem relevantes.
Hoje, ferramentas digitais podem ajudar a ordenar esses dados, mas nenhuma tecnologia substitui a interpretação histórica.
Uma coincidência de nome não prova parentesco. Duas pessoas da mesma comunidade não são necessariamente parentes. Duas famílias que viajaram no mesmo navio não necessariamente se conheciam. Essas são pistas, e não provas. A confirmação precisa vir de documentos independentes. Essa distinção é fundamental para uma genealogia séria.
Outro cuidado importante é observar as variações de sobrenome. O mesmo imigrante pode aparecer com grafias diferentes em documentos produzidos em épocas ou lugares distintos. O artigo Quando o Sobrenome Italiano Mudou no Brasil: Como Encontrar a Origem da Família ajuda a compreender por que uma diferença na escrita deve ser investigada antes de se concluir que os registros pertencem a pessoas diferentes.

O que uma lista de passageiros realmente pode nos devolver

Depois de tantos anos acompanhando pesquisas de famílias de descendentes de italianos, continuo impressionado com a força emocional que um documento aparentemente simples pode adquirir.
No começo, vemos apenas nomes. Depois começamos a perceber as idades. Então aparecem as crianças. Descobrimos quem viajava com quem.
Percebemos que aquela mulher de 42 anos não estava sozinha: havia três crianças ao lado dela. Descobrimos que aquele rapaz de 19 anos provavelmente fazia parte da mesma família. Encontramos uma pessoa que já havia aparecido em outro documento.
E, pouco a pouco, a lista deixa de ser uma relação burocrática de passageiros. Ela começa a parecer uma fotografia. Não uma fotografia em que podemos ver os rostos, mas uma fotografia social daquela travessia.
Ali estão pessoas que deixaram uma parte da vida para trás e embarcaram rumo a um país que, para muitas delas, era completamente desconhecido. Algumas viajavam porque tinham parentes esperando. Outras porque haviam recebido uma carta. Algumas estavam seguindo amigos ou conterrâneos. Outras talvez não tivessem nenhuma certeza além da esperança de que a vida pudesse ser melhor do outro lado do oceano.

Uma lista de passageiros pode aproximar duas gerações

Talvez seja justamente isso que torne esses documentos tão fascinantes. Para o pesquisador de hoje, aquele embarque aconteceu há mais de cem anos. Para quem embarcou, porém, era o presente. Era a vida acontecendo.
Havia medo, expectativa, saudade, esperança e, muitas vezes, uma enorme dose de coragem. Quando encontramos o nome de nosso bisavô ou trisavô em uma dessas listas, estamos olhando para o instante em que sua história brasileira começou a tomar forma.
E, quando encontramos ao lado dele os nomes de outras famílias, percebemos algo ainda mais importante: nossos antepassados raramente construíram suas novas vidas completamente sozinhos. Eles chegaram a comunidades onde já havia conterrâneos, parentes, amigos, conhecidos e pessoas que haviam feito a mesma escolha.
A imigração foi também uma história de redes humanas.

Antes de concluir sua pesquisa genealógica, procure a lista de passageiros

Se você está reconstruindo a trajetória de um ancestral italiano que chegou ao Brasil entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, vale a pena descobrir se existe documentação relacionada à sua chegada.
Procure pelo nome do navio, pela data aproximada da chegada, pelo porto, pelo destino declarado e pelos nomes dos familiares. Pesquise diferentes formas de escrita. Compare diferentes fontes. Quando possível, consulte o documento original e não apenas sua transcrição.
O Portal A Emigração Vêneta também publica registros de viagens específicas, como a lista de passageiros do navio Porteña, de 1876, que pode servir de referência para quem investiga a documentação de uma determinada travessia.
E, principalmente, não abandone a pesquisa porque o nome não apareceu exatamente como você esperava. Documentos históricos não foram produzidos para facilitar a vida dos genealogistas do século XXI. Eles foram produzidos para atender às necessidades administrativas de seu próprio tempo. Cabe a nós aprender a interpretá-los.

Uma última descoberta pode estar escondida entre os passageiros

Depois de encontrar a lista, volte a examiná-la com calma. Talvez você descubra um parente que não sabia que havia emigrado. Talvez encontre uma família da mesma comunidade. Talvez reconheça uma pessoa que reaparecerá em documentos brasileiros. Talvez descubra que duas famílias que hoje vivem em continentes diferentes começaram sua história brasileira na mesma viagem.
Ou talvez não encontre nada disso. Mesmo assim, o documento continuará sendo precioso. Porque nele estará registrado um momento irrepetível: o instante em que pessoas reais deixaram a Europa e atravessaram o oceano em direção a uma vida que ainda não conheciam.
E talvez seja justamente por isso que uma lista de passageiros nos emocione tanto. Ela não registra apenas quem embarcou. Registra o momento em que uma família começou a atravessar a distância entre aquilo que era e aquilo que viria a ser.

Nota do Autor

Durante mais de três décadas, estive em contato com famílias de descendentes de italianos e acompanhei inúmeras pesquisas de origem familiar. Muitas começaram com algo aparentemente pequeno: uma fotografia, uma certidão, uma carta, uma informação transmitida por um avô ou bisavô ou simplesmente o nome de uma pequena comunidade italiana preservado pela memória familiar.
As listas de passageiros sempre ocuparam um lugar especial nesse trabalho. Elas não resolvem sozinhas uma pesquisa genealógica, mas frequentemente oferecem a pista que permite avançar.
Este texto é uma reconstrução, para os leitores de hoje, de um tema que venho tratando há muitos anos no Portal A Emigração Vêneta, em emigrazioneveneta.blogspot.com. Os procedimentos de pesquisa, as plataformas digitais e os acervos disponíveis mudaram, e por isso as orientações foram atualizadas.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Autor e pesquisador da imigração italiana e da história familiar



segunda-feira, 11 de maio de 2026

O Silêncio das Mulheres que Ficaram na Emigração Italiana


 

O Silêncio das Mulheres que Ficaram na Emigração Italiana


Sob o céu baixo e mutável do Vêneto rural, onde os campos se estendiam como um tecido gasto entre vinhedos ralos e terras exaustas, ficaram elas — as mulheres que não embarcaram. Não por escolha plena, mas por cálculo, necessidade ou imposição. Quando os homens partiram, levando consigo o peso das esperanças e o pouco dinheiro reunido, deixaram para trás um mundo que não cessaria de exigir trabalho, fé e resistência.

A despedida não foi um instante, mas um processo que começou meses antes do embarque. Cada gesto cotidiano ganhava um sentido definitivo: a última poda feita em conjunto, a última refeição com todos à mesa, o último olhar trocado sob a luz fraca de uma lamparina. Não havia espaço para grandes manifestações. O silêncio já se insinuava como forma de defesa. Ele protegeria o que restava.

Depois da partida, a casa não se tornou vazia — tornou-se mais pesada. O espaço antes dividido agora recaía sobre uma só presença que precisava multiplicar-se. As mulheres assumiram as contas, os contratos informais, os pequenos acordos com vizinhos, a manutenção das terras, a educação dos filhos e o cuidado com os mais velhos. Herdaram também as dívidas, frequentemente invisíveis, que os homens deixaram para trás ao trocar a certeza da escassez pela promessa distante de abundância.

O trabalho não se restringia aos campos. Havia o tempo da espera, que consumia mais do que a fadiga física. As cartas, quando vinham, chegavam como fragmentos de outro mundo. Eram lidas, relidas e, muitas vezes, reinterpretadas à luz da esperança. As lacunas entre uma correspondência e outra eram preenchidas com suposições. O silêncio do outro lado do oceano não era apenas ausência de notícias; era um espaço fértil para o medo.

Algumas cartas falavam de terras vastas e férteis, de possibilidades que pareciam irreais à luz da realidade europeia. Outras, mais raras, traziam sinais de dificuldade, doenças, perdas. Ainda assim, quase nenhuma era completamente honesta. Havia um esforço deliberado em não desencorajar, em não admitir o fracasso. Esse filtro moldava as decisões de quem ficava. Muitas mulheres sustentaram por anos a ideia de um futuro que talvez nunca se concretizasse.

Com o passar das estações, o tempo passou a ser medido de outra forma. Não mais pelas colheitas apenas, mas pelos intervalos entre notícias. A cada inverno, a ausência parecia mais definitiva. A cada primavera, renascia a expectativa de mudança. Algumas mulheres preparavam-se para partir, reunindo lentamente recursos, organizando documentos, alimentando a possibilidade de atravessar o oceano. Outras aceitavam, ainda que sem palavras, que sua vida permaneceria enraizada ali.

A comunidade, composta por outras ausências semelhantes, reorganizou-se em torno dessas presenças femininas. Formaram-se redes de apoio silenciosas, onde o auxílio era oferecido sem formalidade e sem registro. A solidariedade não era uma escolha moral elevada; era uma necessidade prática. Em um ambiente onde quase todas compartilhavam a mesma condição, a sobrevivência dependia dessa cooperação discreta.

No entanto, nem todas resistiram da mesma forma. Houve aquelas que sucumbiram ao peso acumulado — não de maneira abrupta, mas por um desgaste contínuo. A saúde enfraquecia, a esperança se tornava mais rara, e o cotidiano passava a ser sustentado por uma disciplina quase mecânica. Outras, ao contrário, encontraram uma forma de força que não haviam conhecido antes. Tornaram-se administradoras, negociadoras, líderes informais de famílias e pequenos núcleos rurais.

A ausência masculina alterou também a percepção social dessas mulheres. Em certos casos, ganharam respeito e autonomia. Em outros, enfrentaram desconfiança, vigilância e julgamentos constantes. A linha entre a honra preservada e a suspeita era tênue e frequentemente definida por olhares alheios, não por ações concretas.

Os anos, quando acumulados, criavam uma nova realidade. Crianças cresciam sem a presença dos pais e aprendiam a reconhecê-los apenas por relatos e retratos desbotados. Algumas dessas crianças desenvolveram uma ligação mais forte com a terra europeia do que com a ideia de um Brasil distante. Outras cresceram com o desejo de reencontrar o pai, transformando o oceano em destino inevitável.

Houve reencontros, mas eles raramente corresponderam à memória construída. O tempo havia modificado rostos, vozes e expectativas. O homem que retornava ou chamava a família já não era o mesmo que partira. A mulher que esperara também havia se transformado. Entre ambos, formava-se um espaço de reconhecimento difícil, onde o passado e o presente nem sempre se alinhavam.

E houve, sobretudo, as que nunca reencontraram. Para essas, o silêncio tornou-se definitivo. Não houve confirmação clara de morte ou abandono — apenas a ausência prolongada que, com o tempo, se convertia em certeza não declarada. Ainda assim, muitas mantiveram gestos de fidelidade a um vínculo que existia mais na memória do que na realidade.

O legado dessas mulheres não foi registrado com a mesma intensidade que o dos que partiram. Não há listas completas, nem narrativas celebradas. Sua história se diluiu na continuidade da vida cotidiana, na manutenção de propriedades, na criação de filhos que carregariam adiante uma herança fragmentada.

Sem elas, porém, o projeto migratório teria sido inviável. Foram elas que sustentaram o ponto de origem enquanto o outro lado do oceano ainda era apenas promessa. Foram elas que garantiram que houvesse algo a que retornar — ou alguém que pudesse, um dia, atravessar.

O silêncio que carregaram não foi vazio. Foi uma forma de resistência. Uma linguagem sem palavras, construída na repetição dos dias, na persistência diante da incerteza e na capacidade de manter de pé um mundo que, para muitos, já havia começado a desaparecer.

E é nesse silêncio, mais do que nas travessias ou nas conquistas, que se encontra uma das partes mais profundas da história da emigração italiana.

Nota do Autor

A história da emigração italiana, sobretudo aquela que partiu das regiões do norte no final do século XIX, foi narrada, em grande parte, a partir do gesto da partida. O homem que embarca, o oceano que se impõe, a terra distante que se promete — esses são os eixos mais visíveis de uma epopeia frequentemente celebrada. No entanto, toda travessia implica uma permanência, e é nesse espaço imóvel, menos iluminado pela memória histórica, que se inscreve a experiência das mulheres que ficaram.

Nos campos do Vêneto, da Lombardia e do Trentino, a ausência masculina não representou apenas uma perda afetiva, mas uma reorganização profunda da vida social, econômica e familiar. As mulheres assumiram a condução das propriedades, a gestão dos recursos escassos, a educação dos filhos e o cuidado com os idosos. Tornaram-se, muitas vezes, o eixo silencioso que sustentava a continuidade daquilo que a emigração ameaçava dissolver.

Essa condição, embora amplamente vivida, foi pouco documentada com a mesma intensidade dedicada aos que partiram. Os registros oficiais privilegiam números, fluxos e destinos; as narrativas mais difundidas destacam conquistas, dificuldades e adaptações no Novo Mundo. Já a permanência, marcada por uma espera prolongada e por uma rotina de responsabilidades acumuladas, raramente encontrou espaço proporcional na historiografia tradicional.

As cartas, quando preservadas, oferecem vislumbres dessa realidade. Nelas, é possível perceber não apenas a troca de informações, mas a tentativa de manter vínculos diante da distância e da incerteza. Ainda assim, mesmo essas fontes são parciais. Há muito que não foi escrito, ou que se perdeu, ou que permaneceu restrito à experiência íntima de quem viveu à margem dos grandes acontecimentos.

Este texto não pretende reconstruir uma história individual específica, mas dar forma a uma condição coletiva, sustentada por indícios históricos e pela coerência das circunstâncias vividas naquele período. Trata-se de uma aproximação possível, construída a partir do que se sabe e, sobretudo, do que se pode inferir com responsabilidade histórica e sensibilidade humana.

O silêncio dessas mulheres não deve ser confundido com ausência de ação ou de relevância. Pelo contrário, foi um silêncio denso, estruturante, que permitiu a continuidade de famílias, a preservação de vínculos e, em muitos casos, a própria viabilidade do projeto migratório. Sem ele, a travessia teria sido incompleta.

Ao trazer esse silêncio para o centro da narrativa, busca-se não apenas preencher uma lacuna, mas reconhecer uma dimensão essencial da emigração italiana — aquela que não cruzou o oceano, mas que, ainda assim, sustentou tudo o que nele se projetou.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



terça-feira, 5 de maio de 2026

Onde Encontrar Registros de Imigrantes Italianos no Brasil e na Itália


 

Onde Encontrar Registros de Imigrantes Italianos no Brasil e na Itália


A reconstrução da trajetória de um imigrante italiano — seja para fins históricos, genealógicos ou de cidadania — passa necessariamente pela consulta a fontes documentais confiáveis. Esses registros encontram-se dispersos entre arquivos públicos, instituições religiosas, bancos digitais e acervos internacionais.

1. Registros no Brasil: os caminhos da chegada

O Brasil conserva vasta documentação sobre a entrada e a permanência de imigrantes italianos, especialmente a partir do final do século XIX.

Arquivo Nacional (RJ e Brasília)

O principal repositório brasileiro é o Arquivo Nacional, que mantém:

  • Listas de passageiros e registros de entrada
  • Prontuários de estrangeiros (RNE – Registro Nacional de Estrangeiros)
  • Documentos administrativos e migratórios

A base “Entrada de Estrangeiros no Brasil – Porto do Rio de Janeiro” reúne cerca de 1,3 milhão de nomes entre 1875 e 1910 , permitindo buscas por nome, navio, profissão, origem e destino .

Com essas informações, é possível solicitar a certidão oficial de desembarque, documento essencial para comprovação histórica.


Arquivos Públicos Estaduais

Estados com forte imigração italiana possuem acervos próprios:

  • Arquivo Público do Estado de São Paulo (APESP)
  • Arquivo Público do Espírito Santo
  • Arquivo Público do Paraná
  • Arquivo Público do Rio Grande do Sul
  • Centro de Pesquisas Genealógicas (CPG) de Nova Palma, no Rio Grande do Sul

Somente em São Paulo, milhares de pedidos de certidões são feitos anualmente, com predominância de descendentes italianos .

Esses arquivos contêm:

  • Listas de colonos
  • Registros de hospedarias de imigrantes
  • Matrículas de lotes coloniais
  • Lista de fazendas que empregavam imigrantes
  • Recenseamentos

Museus e instituições especializadas

Destacam-se:

  • Museu da Imigração (SP)
  • Bibliotecas públicas e universitárias
  • Associações culturais italianas

Essas instituições complementam a pesquisa com documentos, fotografias, cartas e registros comunitários .


Cartórios e registros civis brasileiros

Após 1889, o Brasil instituiu o registro civil obrigatório. Assim, é possível encontrar:

  • Certidões de nascimento
  • Casamento
  • Óbito

Esses documentos são fundamentais para reconstruir a linhagem até o imigrante.


2. Registros na Itália: a origem documental

A pesquisa na Itália exige precisão: é necessário identificar o comune (município) de origem do antepassado.

Registros Civis Italianos (Stato Civile)

Os documentos italianos são a base de qualquer comprovação genealógica:

  • Nascimento (atto di nascita)
  • Casamento (atto di matrimonio)
  • Óbito (atto di morte)

Eles são mantidos nos cartórios municipais (ufficio dello stato civile) .


Arquivos de Estado (Archivio di Stato)

Cada província italiana possui um arquivo estatal que guarda:

  • Registros civis antigos
  • Listas militares
  • Documentos administrativos

Hoje, muitos desses arquivos estão digitalizados.


Portais digitais e bases online

A grande revolução recente está no acesso digital:

  • Portais com documentos de mais de 60 arquivos italianos permitem pesquisa por nome ou navegação por registros 
  • Plataformas genealógicas internacionais (como bases digitalizadas) reúnem milhões de registros

Nem todos os documentos estão indexados — muitas vezes é necessário folhear os livros digitalizados manualmente.


Arquivos eclesiásticos (igrejas)

Antes da criação do registro civil (que varia por região italiana), os registros eram mantidos pela Igreja:

  • Batismos
  • Casamentos religiosos
  • Óbitos (sepultamentos)

Esses documentos podem remontar ao século XVI ou XVII.


3. Outras fontes fundamentais

Além dos registros principais, há fontes complementares de grande valor:

Registros de naturalização

Indicam se o imigrante tornou-se brasileiro — informação crucial para cidadania.

Registros militares italianos

Podem conter:

  • Local de nascimento
  • Filiação
  • Descrição física

Listas de navios e portos

Essenciais para identificar:

  • Data de chegada
  • Porto de embarque
  • Família acompanhante

4. Estratégia correta de pesquisa

A investigação deve seguir uma ordem lógica:

  1. Começar pelos documentos brasileiros recentes
  2. Avançar geração por geração
  3. Identificar o comune italiano
  4. Buscar o registro original na Itália

Sem o local exato de origem, a pesquisa torna-se extremamente difícil, pois a Itália possui milhares de municípios.


5. Avanços recentes (era digital)

Nos últimos anos, houve avanços decisivos:

  • Digitalização massiva de arquivos italianos
  • Integração de bases de dados
  • Acesso remoto a documentos históricos

Isso transformou uma pesquisa antes restrita a especialistas em uma atividade acessível ao público — embora ainda exija método e paciência.


Conclusão

Encontrar registros de imigrantes italianos é uma jornada que atravessa oceanos documentais — do porto de chegada no Brasil aos pequenos cartórios das aldeias italianas.

Mais do que um exercício burocrático, trata-se de um reencontro com a própria origem. Cada certidão, cada nome e cada registro revelam fragmentos de uma história maior: a epopeia da imigração italiana e a construção de novas identidades no Brasil.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


sexta-feira, 10 de abril de 2026

Padre Colbacchini no Brasil - Vida, Obra e Missão entre os Imigrantes Italianos


 

Padre Colbacchini no Brasil - Vida, Obra e Missão entre os Imigrantes Italianos

“Os mais fracos não emigram, não navegam nos mares, deixando para trás a pátria e a família; os mais medrosos ficam. Em geral partem aqueles para quem a vida é uma batalha e cuja alma é forte o suficiente para lutar mesmo nas condições mais difíceis”.


Origem e Formação de Padre Pietro Colbacchini

Padre Pietro Colbacchini nasceu em Bassano del Grappa, comune da província de Vicenza, na região do Vêneto, em 11 de setembro de 1845.

Entrou para a ordem dos jesuítas, em Verona, e no final do ano de 1863 iniciou o noviciado, o qual, por motivos de doença, não viria a concluir. No entanto, essa passagem pela ordem dos jesuítas — a Companhia de Jesus — marcou profundamente sua atuação junto aos imigrantes, consolidando vários aspectos de sua personalidade empreendedora, independente e autoritária.

Concluiu seus estudos no seminário diocesano de Vicenza e foi ordenado sacerdote em 19 de dezembro de 1869, com apenas 23 anos de idade.

Trabalhou como pároco até 1883, quando passou a dedicar-se exclusivamente como missionário apostólico.

Desde então tinha em mente o Brasil, para onde milhares de italianos estavam emigrando e necessitavam de assistência religiosa. Isso se depreende de suas tentativas de arregimentar outros sacerdotes da diocese de Vicenza para essa missão e também de sua correspondência com o padre Domenico Mantese, então pároco de Poinela.


Carta de Colbacchini sobre as Colônias Italianas no Paraná

"Nel Paranà le colonie sono libere indipendenti. Dietro mio impulso in tutte le colonie stansi costruendo le Chiese; sono composte di italiani quasi tutti della nostra diocesi e delle limitrofe, tutta gente che sente molto della religione e che sofre molto della privazione del sacerdote. [...] Voglia far il favore di interrogare o per iscritto o meglio in persona i seguenti sacerdote che pur so avrebbero disposizioni per la S. opera: D. Antonio Catelan Parroco di Lovertino, D. Pietro Micheli Curato a S. Vito di Bassano, D. Angelo Quarzo pur di Bassano ed altri che conoscete del caso. Il Signore la pagherà di tutto".

Tradução:

"No Paraná as colônias são livres e independentes. Depois do meu impulso se estão construindo igrejas em todas as colônias; são compostas de italianos quase todos da nossa diocese ou de seus limítrofes, gente que sente muito a falta da religião e que sofre muito por estarem sem um sacerdote. [...] Me faça o favor de interrogar ou por escrito ou melhor se pessoalmente os seguintes sacerdotes que também sei teriam disposição para esta santa obra: pe. Antonio Catelan pároco de Lovertino, pe. Pietro Micheli cura de San Vito di Bassano, pe. Angelo Quarzo também de Bassano e outros se for o caso. O Senhor lhe pagará por tudo".


O Chamado Missionário para o Brasil

Carta do Padre Pietro Colbacchini enviada ao Monsenhor Spolverini, internúncio apostólico, representante da Santa Sé no Brasil:

"Nel mese di Maggio de 1884 mi ritrovava in Feltre a predicare in quella Cattedrale..."

Tradução:

"No mês de maio de 1884 eu me encontrava em Feltre pregando na catedral local. Um bondoso sacerdote de Campo di Quero, localidade vizinha, veio até mim apresentando diversas cartas recebidas de seus conterrâneos dispersos nas províncias brasileiras do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, pedindo insistentemente que fosse até eles para lhes prestar auxílio espiritual.

Cortaram-me o coração os lamentos que nessas cartas faziam sobre o abandono em que jaziam tantos desventurados italianos e o perigo em que se encontravam de perder a fé.

Havia muitos anos que eu aspirava à missão italiana no Brasil, contudo as dificuldades presentes me levaram a suspender a realização desse projeto. As contínuas ocupações com missões na Itália me tomavam o tempo e as preocupações.

As cartas conseguiram sacudir-me, tirar-me qualquer dúvida, e decidi partir o mais rápido possível".


Primeira Experiência Missionária em São Paulo

O Padre Pietro Colbacchini chegou ao Brasil e dirigiu-se ao estado de São Paulo para assumir a assistência religiosa aos imigrantes italianos de uma colônia localizada no interior, próximo de onde hoje se encontra o município de Jundiaí, composta predominantemente por emigrantes procedentes de Mantova.

As dificuldades encontradas pelos missionários estavam ligadas ao próprio modelo de colonização existente nas fazendas de café paulistas.

Nessas regiões, a assistência religiosa dependia muitas vezes da permissão dos proprietários das fazendas, que frequentemente colocavam obstáculos à presença dos sacerdotes.

Colbacchini tentou exercer seu ministério na colônia de Monserrate, perto de Jundiaí, durante cerca de um ano e meio, mas sem conseguir realizar plenamente seu projeto pastoral.


As Dificuldades nas Fazendas de Café

Em carta endereçada ao padre Mantese, datada de 28 de fevereiro de 1887, Colbacchini descreveu as dificuldades enfrentadas:

"Passei lá um ano e meio com muito incômodo de minha parte..."

Relatava problemas como:

  • precariedade de alojamento

  • alimentação insuficiente

  • dificuldades com os proprietários das fazendas

  • ignorância religiosa dos colonos

  • dependência da vontade dos fazendeiros

Segundo ele, muitos fazendeiros não tinham “outra religião senão a do dinheiro”.


Transferência para o Paraná

Diante das dificuldades encontradas em São Paulo, Colbacchini solicitou transferência para a Província do Paraná, onde acreditava que poderia desenvolver melhor seu projeto missionário.

Nos estados do Sul do Brasil — Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul — os imigrantes italianos estavam organizados em colônias agrícolas de pequenos proprietários, o que favorecia o trabalho pastoral.

Esse modelo era semelhante ao do mundo rural italiano, permitindo aos sacerdotes maior autonomia.


A Missão em Curitiba e a Igreja da Água Verde

Ao chegar ao Paraná, Colbacchini estabeleceu-se na Colônia Dantas, atual bairro Água Verde, em Curitiba.

Foi inicialmente hospedado por Antonio Bonato, também natural de Bassano del Grappa.

No Natal de 1887, passou a morar na nova casa paroquial construída pelos próprios imigrantes italianos.

A igreja da Água Verde, construída por seu incentivo e da qual foi:

  • arquiteto

  • mestre de obras

  • decorador

foi inaugurada em 29 de junho de 1888.

Logo depois, por decreto episcopal, foi declarada sede das colônias italianas da região.

A festa de inauguração durou três dias e contou com cerca de 2.000 imigrantes italianos, segundo o próprio Colbacchini.

A igreja foi dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, devoção que ele buscava difundir entre os colonos juntamente com a devoção eucarística.


As Condições das Colônias do Litoral Paranaense

Antes da expansão da colonização nas regiões próximas a Curitiba, algumas experiências haviam sido realizadas no litoral do Paraná, nas colônias:

  • Alexandra (Alessandra)

  • Nova Itália

Essas iniciativas fracassaram devido a:

  • clima insalubre

  • doenças tropicais

  • pragas agrícolas

  • isolamento econômico

Em relatório de 1892, Colbacchini descreveu as difíceis condições enfrentadas pelos colonos.

Entre os problemas citados estavam:

  • ataques de mosquitos

  • infestação de berne

  • presença de bicho-de-pé

  • doenças causadas pelo clima tropical

Segundo o sacerdote, essas condições produziam:

  • enfraquecimento físico

  • desânimo

  • falta de apetite

  • sensação de abandono


Conflitos com o Clero Brasileiro

Colbacchini enfrentou também conflitos com membros do clero brasileiro.

Em carta de 10 de março de 1888, dirigida ao Monsenhor Scalabrini, criticava duramente a situação do catolicismo local, afirmando que muitos sacerdotes se limitavam a:

  • celebrar missa rapidamente

  • realizar batismos e casamentos

  • negligenciar a assistência espiritual

Chegou a afirmar que muitos morriam sem receber os sacramentos.


Conflitos Ideológicos e Anticlericalismo

Além dos conflitos com o clero local, Colbacchini enfrentou oposição de:

  • liberais italianos

  • maçons

  • anarquistas

  • anticlericais

Esses conflitos refletiam as tensões ideológicas surgidas na Itália após a unificação italiana.

Entre os episódios de confronto estava a criação da Sociedade Giuseppe Garibaldi, fundada por italianos de orientação liberal em Curitiba para promover uma escola italiana.

Colbacchini acusava a instituição de possuir influência maçônica.


Perseguições Durante a Revolução Federalista

Durante a Revolução Federalista (1893–1894), Colbacchini foi perseguido por adversários políticos e ideológicos.

Em carta de 28 de abril de 1894 ao bispo Monsenhor Scalabrini, descreveu ataques contra sua residência e ameaças de morte.

Segundo ele, chegou a viver dois meses escondido em áreas de mata e pântanos, protegido por colonos armados.


Retorno à Itália e Fundação de Nova Bassano

Após as perseguições sofridas, Colbacchini retornou à Itália em 1894, estabelecendo-se novamente em Bassano del Grappa.

Durante esse período escreveu a obra:

Guida Spirituale per l’Emigrato Italiano nella America

O livro destinava-se a orientar espiritualmente os imigrantes italianos na ausência de sacerdotes.

Em 1896, retornou ao Brasil, desta vez dirigindo-se ao Rio Grande do Sul, onde fundou a colônia de Nova Bassano, que posteriormente se tornaria município.


Morte e Legado

Padre Pietro Colbacchini manteve até o fim da vida sua postura firme e intransigente na defesa da moral católica e da organização religiosa entre os imigrantes.

Já com a saúde debilitada, faleceu em 30 de janeiro de 1901, em Nova Bassano, no Rio Grande do Sul.

Sua atuação marcou profundamente a organização religiosa das colônias italianas no sul do Brasil e permanece como um capítulo importante da história da imigração italiana e da missão católica entre os emigrantes.

Nota do Autor

A trajetória do sacerdote italiano Pietro Colbacchini constitui um capítulo relevante da história da Imigração Italiana no Brasil e da reorganização do catolicismo entre as comunidades de emigrantes no final do século XIX. Seu trabalho missionário desenvolveu-se em um período de profundas transformações sociais, políticas e religiosas tanto na Europa quanto na América, quando milhões de europeus atravessaram o Atlântico em busca de novas oportunidades de vida.

No Brasil, especialmente nas regiões do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, a presença italiana cresceu rapidamente a partir da década de 1870. Essas comunidades de imigrantes, muitas vezes instaladas em colônias agrícolas relativamente isoladas, enfrentavam não apenas dificuldades econômicas e ambientais, mas também a carência de assistência religiosa regular. Foi nesse contexto que missionários italianos passaram a desempenhar papel fundamental na organização social, cultural e espiritual dessas populações.

A atuação de Colbacchini relaciona-se diretamente ao movimento de renovação pastoral promovido pelo bispo italiano Giovanni Battista Scalabrini, que incentivou a criação de uma estrutura missionária destinada especificamente ao acompanhamento espiritual dos emigrantes. Dessa iniciativa surgiu a Congregação dos Missionários de São Carlos Borromeo, também conhecida como missão escalabriniana, responsável por estabelecer redes de assistência religiosa em diversas regiões da diáspora italiana.

As cartas, relatórios e testemunhos deixados por Colbacchini constituem hoje fontes históricas importantes para o estudo da imigração italiana e da história do catolicismo no Brasil. Esses documentos revelam aspectos fundamentais da vida cotidiana nas colônias agrícolas, como as dificuldades de adaptação ao clima, as doenças tropicais, a precariedade das primeiras instalações e os conflitos culturais entre imigrantes europeus e a sociedade local.

Ao mesmo tempo, seus escritos evidenciam as tensões ideológicas presentes nas comunidades italianas da época. Muitos imigrantes traziam consigo influências do liberalismo, do republicanismo, do anticlericalismo e, em alguns casos, do anarquismo, correntes políticas bastante difundidas na Itália após o processo de unificação nacional. O confronto entre essas ideias e o catolicismo ultramontano defendido por missionários como Colbacchini gerou disputas que marcaram profundamente a vida social das colônias.

Do ponto de vista historiográfico, a figura de Pietro Colbacchini permite compreender o papel desempenhado pela Igreja Católica na formação das comunidades ítalo-brasileiras. Mais do que um simples líder religioso, o missionário atuou como mediador cultural, organizador comunitário e agente de coesão social entre os imigrantes. Sua presença contribuiu para a construção de igrejas, paróquias e instituições que se tornaram centros de sociabilidade e identidade coletiva para milhares de colonos italianos.

Estudar a vida e a obra de Colbacchini significa, portanto, analisar um processo histórico mais amplo: a formação das comunidades de imigração italiana no Brasil e a maneira como religião, cultura e identidade se entrelaçaram na experiência dos emigrantes. Nesse sentido, sua trajetória representa uma fonte privilegiada para compreender não apenas a história da Igreja entre os imigrantes, mas também as dinâmicas sociais que contribuíram para moldar parte significativa da sociedade brasileira no final do século XIX e início do século XX. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



segunda-feira, 23 de março de 2026

Lista de Sobrenomes de Imigrantes Italianos em Ouro Fino MG


Lista de Sobrenomes de Imigrantes Italianos em Ouro Fino MG


Alberti Baggio Bailloni Ballestra Banchieri Bandoria Barci Battisteli Bazzani Bechelli Beghini Beligni Bellini Benni Bernardelli Bernardi Bertelli Bertinatto Bianchi Bolognani Bombacchi Bonini Bressan Bruggin Buonamici Buralli Burza Butti Buttilagaro Cadan Calarezzi Canella Caniello Capacci Caprara Cardani Carpentieri Carrozza Casasanta Castelli Cavallari Cavatoni Cecon Cetolo Chiessa Chincchio Cividatti Clementoni Coldibelli Colombo Coltri Condi Consentino Crestani Cyrillo D'acol Dainezze Dallò Daolio Davini Dellatorre Dellorenzo Del Nero De Luca Doria Farinacci Fatori Favaro Favilla Felice Felippi Ferraresi Ferrari Francelli Franchi Frangelli Furlan Gambaro Gangi Garbi Genovezzi Geraldi Germiniani Gerotto Giacometti Giandozzo Gissoni Golla Gottardi Grassi Guarini Guarizzi Gubiotto Guidi Jannuzzi Larai Lemmi Lomonaco Lucchini Mainardi Mangagnoto Mantovani Marcaccini Marchezelli Marcilio Margini Marinelli Martinelli Massari Massaro Meazzini Medau Megalle Melega Merlo Michelloto Migliori Migliorini Milani Miotto Momesso Montagnolli Morganti Moroli Moroni Mucci Nardini Nardon Natale Navi Negri Nicaretto Oliva Onoratti Pagano Pagliarini Paolo Pardini Parma Patricio Patronieri Paulini Pellicano Penacchi Persinotto Petrarolli Petri Piovesan Polato Poltronieri Pucci Puttini Quaglia Rastelli Riciotti Rigotto Roma Roni Rivelli Rossi Sacchetti Sainatto Salla Semião Serigiotto Sirolli Tadini Tardelli Tardini Tassotti Tecchi Teobardini Togni Tomazzeli Tomazzini Tomazzolli Tonini Torriani Trezza Troisi Tumioto Veronezzi Vicentini Zelante Zerbinatti Zia Zorattini Zucon


Nota

Esta lista reúne sobrenomes de imigrantes italianos relacionados à cidade de Ouro Fino, Minas Gerais, identificados em registros históricos, documentos de época e fontes genealógicas disponíveis. O levantamento não pretende abranger todos os sobrenomes existentes, mas oferecer um panorama das famílias italianas que contribuíram para a formação social, econômica e cultural do município. A lista poderá ser ampliada à medida que novas pesquisas forem realizadas e que descendentes ou pesquisadores compartilharem novas informações.



quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Sobrenomes de Imigrantes Italianos em Poços de Caldas MG

 

Sobrenomes de Imigrantes Italianos em Poços de Caldas MG


Acciari - Agostini - Aiello - Allara - Alessandri - Alvisi - Amadio - Ambrogi - Andracoli  - Andrea - Annoni - Antonelli - Archangeli - Arcipreti  - Arnise - Arruga - Artioli - Audizio - Avanzi - Aversa - Bacco - Balbia - Balestri - Ballerini - Barbon - Bartoli - Barbieri - Basilio - Batta - Beccaro - Belelli - Beliato - Belloggi - Beltrame - Benetti - Benozzati - Berarda - Berlinari - Bernardo - Bertozzi - Beni - Bernia - Bianchi - Bianchetti - Bianucci - Bidoni - Biliano - Blaschi - Boggio -  Bonadero - Bonelli - Bonini - Bonvicino - Boratto - Borelli - Borinato - Braghetta - Braz - Bresaulo - Bressane - Broccardo - Brunacci - Brunelli - Brunetti - Buda - Buscia - Cagnani - Calderaro -  Camillo - Campana - Canali - Caniato - Capitani - Caponi - Cappelli - Cappello - Carbone - Cardillo - Cardirali - Carletti - Caruso - Casadei - Casali - Cascella - Casella - Castellani - Cavazzoni - Cavini - Cecchini - Ceci - Centola - Cherchiai - Cerpoloni - Cerri - Cestaro - Cheberle - Chiado - Chinate - Cinquini - Ciancaglino - Cinelli - Clemente - Cobatto - Comissi - Conci - Contiero - Coraini - Corona - Corradi - Cosentino - Cunico - Curcio - Curia - Dalla Rosa - Dalmo - Dal Poggetto - D'ambrosio - D'angelo - Danza - Darioli - Delfino - Della Santina - Del Sarto - Del Vecchio - De Liberador - De Luca - Denubilo - De Parolis - Depiaggio - D'este - De Stefani - De Stefano -  De Simone - Dianda - Digro - Di Lorenzo - Dinucci - Discorio - Diotisalvi - Donadio - Donzelli - Driussi - Dupanda - Durante - Emanuelli - Emiliano - Errico - Fabri - Fagnani - Falchetta -  Fantozzi - Fazzi -  Fazzi - Fazzini  - Felizia - Ferrara - Ferrari - Ferraris - Ferro - Ferron - Filardo - Finelli - Finotti - Flaminio - Forni - Fortunato - Franco - Franzini -  Frediano - Fresati - Frison - Frusato - Furchi - Gaglia - Galeazzi - Galise - Gambini - Garavello - Garibaldi - Gaspari - Gasparini - Gatti - Gerini - Gesualdi - Ghilardi - Ghirlanda - Giacometti - Gianelli - Gianmarini - Gianni - Gianotti - Gibin - Giglioti - Gilberto - Giorgetti - Giorgi -  Girolami - Giuntoli - Giusti -   Goffi - Gomirato - Gonzo - Gorrasi - Grandinetti - Grazia - Grazia - Ghetti - Guazzelli - Guelfi - Guerra - Guglielmucci - Gugliotti - Infante - Incrocci - Ippolito - Jacono - Judice - La Motta - Latronio - Lauria - Legnaro - Lio - Longo - Lorenzini - Loro -  Lovato -  Luciano - Lunardi - Lupetti - Malfi - Mancini - Mandarini - Manfredini - Manone - Mannini - Mannini -Mantovani -  Maran - Marampelli - Marcaccini - Marcante - Marcelli - Maré - Maretti - Maretti- Marini - Marino - Martinelli - Martini - Massari - Matanó - Mattavelli - Mazza - Mazza - Mazzotti - Melzo - Mencarini - Mengali  - Merlo - Metidieri - Merola - Michelotti - Miglioranzi - Milani - Milara - Miniscalco - Mircolongo - Modesti - Mollo - Monge - Monguzzia - Montanelli - Monte - Montevecchio - Moro - Mussolini - Naldoni - Nanni - Nastri - Nastrini - Neofiti - Nespati - Nicodemo - Nigra - Nucci - Nuzza - Occhiena  Olio  Orlandi  Orlandi  Orlandi Orsi   Osti - Pagin  Paladini  Pallagano - Pallini - Panari - Pandolfo - Pandolfo - Pansinipapiani - Pardini - Parini - Parison - Paschero - Pascoli - Pasculli - Pasquini - Pastore - Pastori -  Patteroni - Pavan -  Pavesi - Pelicciari - Pellegrinelli - Pellici - Peppe - Perillo - Perri - Pertini - Peterle - Petrecca - Piccinini -  Piccolo  - Pieracci - Pierantonio - Pierini -  Pieve -  Pigon - Pinola - Piovesan - Pironato - Pistagi -  Pistoresi - Pizzini - Pizzol - Poggetto - Pomarico - Ponteprimo -  Poppi - Possenti -  Prezia - Prospero - Puccetti  - Puig Visconti  - Puglia - Ralangi - Ranga  - Ranauro  - Raspante  - Ratta  - Rebeque - Rebosti - Riccioniridolfi  - Righetto  - Rigucci  - Risola  -  Rizzieri  - Rizzo  - Rochetto  - Rocco - Rosa - Rosi - Rosina - Rotondari - Rotunno - Rugani - Russi - Ruza - Sabaini - Saettone - Sala - Salomone - Salvadori - Salvatore - Salvucci - Sangiorgi - Sanprini - Sandri - Santi - Santolia - Sarti - Sarubbi - Satti - Scabbia - Scala - Scassiotti - Scattolin - Scolari - Sculamiglio - Sergio - Severini - Siciliani - Sgilli - Silvestrini - Solferini - Sozzi - Sparapan - Spini - Stanziola - Stella - Straface - Suppo - Tacconi - Tallone - Tamburi - Tassi - Tassinari - Taviani - Tedesco - Tepedino - Testa - Tivoli - Todescato - Togni - Torquati - Tramonte - Trezza - Troyano - Trotta - Tucci - Valentin - Valtriani - Varallo - Venafro - Venturini - Vergani - Vernacci - Veronesi - Vescio - Vigna - Villa - Virga - Visentini - Viti - Viti - Vizzotto - Zaghetto - Zampieri - Zanelli - Zangrando - Zanni - Zannoni - Zanovello - Zapparoli - Zilli - Zincone - Zono - Zotti - Zuanella


Nota

Esta lista reúne sobrenomes de imigrantes italianos relacionados à cidade de Poços de Caldas, MG, com base em registros históricos disponíveis, documentos de época e referências genealógicas. Ela não pretende esgotar todos os sobrenomes existentes, mas oferecer um panorama representativo das famílias italianas que contribuíram para a formação social e cultural do município. Novas informações podem ser incorporadas à medida que surgirem novas fontes e colaborações de pesquisadores e descendentes.