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quarta-feira, 13 de maio de 2026

Sob Céus Estranhos: A Travessia de Leone Valdagno

 

Sob Céus Estranhos: 

A Travessia de Leone Valdagno


Cismon del Grappa, 1877

A brisa que descia da Valbrenta naquela primavera tardia ainda carregava o gosto metálico da neve que se dissolvia nas ravinas sombreadas, arrastando consigo o cheiro acre dos pinheiros partidos e das pedras molhadas que rangiam sob o degelo. Para Leone Valdagno, aquele ar cortante não era mais sinal de vida renascendo. Tornara-se um lembrete cruel daquilo que ele já não conseguia suportar — um ciclo imutável de promessas quebradas e fadiga sem recompensa.

Filho de camponeses tão pobres que não possuíam sequer uma mula para o arado, Leone crescera entre os socalcos íngremes e pedregosos que contornavam os campos escassos de Cismon del Grappa, onde a terra se recusava a dar pão sem exigir, em troca, sangue e ossos. Desde a infância, aprendera que plantar significava ajoelhar-se diante de uma terra hostil, enquanto os calos nas mãos engrossavam mais rápido que as espigas de trigo. O sol era implacável no verão, e a neve não perdoava no inverno. Nem mesmo as estações sabiam aliviar.

O pouco que colhiam ia direto para os celeiros do patrão, que vivia numa villa não muito distante, cercada de nogueiras, do outro lado do vale. Restavam-lhes as sobras: polenta rala, sopa aguada e, de tempos em tempos, um naco de queijo duro como pedra. Mas o que realmente corroía Leone não era a fome. Era a certeza de que nada mudaria. Que o suor do pai, o silêncio da mãe e a infância roubada dos irmãos mais novos serviam apenas para manter o mundo do mesmo jeito — imóvel, desigual, impiedoso.

Naqueles dias em que o vento da montanha soprava mais forte, ele olhava para o sul, onde as trilhas levavam a Bassano e, mais adiante, aos portos de Veneza. E mesmo sem nunca ter visto o mar, já sonhava com navios. Não por aventura, mas por necessidade.

Era ali, entre pedras e resignação, que nascia o germe da fuga.

Aos trinta e oito anos, depois de uma vida inteira de enxada, dívidas e invernos que pareciam não ter fim, Leone Valdagno já não esperava mais nada do tempo. As estações lhe haviam ensinado a não fazer planos. Cada primavera trazia uma esperança silenciosa, logo esmagada pela colheita minguada e pelos cobradores impassíveis. Sua juventude escoara entre o suor e o silêncio, e seus braços, embora ainda firmes, já começavam a doer com a persistência dos que não podiam parar.

Foi então que chegou a carta.

Trazida pelo carteiro de Feltre, com os dedos manchados de poeira e o rosto sem expressão, o envelope carregava o brasão do Império Brasileiro no selo. O papel, amarelado e marcado por dobras trêmulas, exalava um cheiro estranho — talvez maresia, talvez saudade. Mas o que havia dentro dele era mais que palavras. Era um sismo.

Escrevia-lhe Angelo, o irmão mais velho que partira dois anos antes para um lugar tão remoto que, até então, só existia nos mapas das promessas e nas conversas sussurradas junto à lareira. O tom da escrita era de um fervor quase religioso. Falava de uma terra que não exigia o mesmo preço para se viver. Descrevia rios largos, colinas cobertas por mato espesso e escuro, e um céu que, segundo ele, parecia respirar junto do homem. Mencionava a fartura da água, o ar que entrava nos pulmões como se tivesse sido soprado pelas mãos de Deus. E, acima de tudo, falava de liberdade — não como conceito, mas como sensação física, concreta, como algo que se podia tocar com os dedos sujos de terra.

Leone leu e releu a carta como quem segura uma tocha num túnel sem fim. Cada linha acendia uma memória — do pai curvado sobre o solo duro, da mãe costurando sob a luz da vela, das noites em que o frio invadia até os ossos. Mas também cada linha abria uma brecha no que antes parecia selado: a possibilidade de que a vida ainda pudesse se reinventar.

E naquele instante, sem precisar dizer uma só palavra, Leone compreendeu que estava diante de uma escolha que não podia mais ser adiada. Não era apenas uma carta. Era uma ruptura. Naquelas palavras não havia apenas um convite. Havia uma absolvição. Como se, enfim, tivesse terminado a pena imposta por nascimento. “Fuja desta prisão, venha para onde se vive,” implorava Angelo. Era como se o próprio coração escrevesse com os dedos do irmão. Leone não precisou pensar muito.

Vendeu a vaca magra que já mal dava leite, hipotecou a casa envelhecida herdada dos pais — mais pedra do que abrigo — e partiu com o coração dividido entre o impulso e a culpa. Deixou para trás a mulher em prantos, os filhos agarrados às saias dela, o cheiro do fogão a lenha ainda aceso e o campo em silêncio, como se até a terra tivesse entendido o abandono. Não olhou para trás. Sabia que, se o fizesse, não conseguiria partir. Viria buscá-los mais tarde, se tivesse sorte. 

No porto de Gênova, o cheiro de sal misturado ao carvão queimado golpeou-lhe o rosto como um tapa do destino. Milhares de rostos se aglomeravam na beira dos armazéns e nas filas para o embarque, carregando malas improvisadas, cobertores, imagens de santos, retratos amassados. Havia choro, gritos, orações, mas também uma estranha quietude nos olhos de quem já não tinha mais nada a perder. O navio — negro, sujo, de flancos corroídos pela ferrugem — gemia sob o peso de centenas de corpos amontoados. Era um casco flutuante de esperança e desespero.

A travessia durou mais de um mês. Trinta e sete dias em que o tempo parecia derreter e escorrer pelas frestas do porão. Ali dentro, as noites não eram noites — eram prolongamentos sufocantes do dia. O ar, saturado de vômito, suor, dejectos humanos e querosene, tornava difícil respirar. As febres vinham como ondas, levando crianças frágeis ao delírio. Os enjoos desidratavam os adultos. A saudade, precoce e corrosiva, roubava as palavras e os sonhos.

Crianças choravam sem consolo, seus olhos enormes buscando no escuro um colo conhecido. Velhos, vencidos pelo balanço incessante, pela umidade e pela fome, adormeciam para não mais despertar. Alguns eram cobertos com panos e, no dia seguinte, levados discretamente até a amurada, onde os marinheiros executavam o ritual final: um corpo, uma oração breve, um silêncio pesado, e então o mergulho no Atlântico.

Mas Leone resistiu. Com o corpo enrijecido pelo trabalho no campo e o espírito endurecido por anos de renúncia, ele atravessou cada dia como quem segura uma corda presa ao futuro. Não sabia o que encontraria do outro lado do oceano. Só sabia o que deixara para trás — e isso bastava para não desistir.

Desembarcou no porto de Santos com a roupa puída colada ao corpo, o rosto encovado pela travessia e um pedaço de pão seco, endurecido como pedra, guardado no bolso como se fosse um tesouro. O calor úmido da costa paulista o atingiu de imediato, espesso e opressivo, tão diferente do frio cortante dos Alpes vênetos. O chão vibrava com o movimento dos guindastes, das carroças, dos negros escravizados em liberdade recente e dos recém-chegados — famílias inteiras atônitas, perdidas num idioma estranho e num continente que cheirava a madeira úmida, suor animal e maresia antiga.

Dali, ainda seguiu de trem até Jundiaí, sacolejando por horas em vagões abafados, onde o cheiro do carvão se misturava ao dos corpos cansados e aos gritos dos vendedores que se empoleiravam nas janelas das estações. O trem deixava para trás, a cada parada, resquícios da civilização portuária e entrava cada vez mais fundo num interior de matas espessas e terrenos ondulados, mas também grandes plantações.

Quando os trilhos terminaram, Leone seguiu a pé. A estrada de terra batida subia lentamente rumo às colinas da Serra de Botucatu. Por horas, atravessou vales silenciosos, trechos de mata virgem onde o céu parecia mais baixo, e planícies que se perdiam num horizonte sem pedra nem torre, como se o mundo tivesse sido redesenhado. Dormiu a beira de rios, alimentou-se de raízes, do pão que sobrara, e de uma obstinação que já não era coragem, mas necessidade.

Foi ali, entre o verde bruto do Brasil e o vermelho espesso da terra nova, que avistou pela primeira vez a colônia agrícola onde Angelo havia se estabelecido. Não passava de um punhado de barracões rústicos, erguidos às pressas, cercados por roças recém-abertas e picadas cavadas à foice. Era o esboço de um mundo em construção, financiado por um latifundiário paulista que, atento ao fim recente da escravidão, via nos europeus uma nova engrenagem para o império do café.

Leone chegava com as mãos vazias, os pés em sangue e o passado ainda latejando nos ombros. Mas naquele pedaço de chão revolvido, onde nada ainda tinha forma definitiva, sentiu que talvez, pela primeira vez, a vida estivesse apenas começando.

Quando Leone finalmente alcançou a colônia agrícola no alto das colinas da Serra de Botucatu, o que encontrou não foi o paraíso anunciado nas cartas do irmão, tampouco a abundância sonhada durante os dias de enjoo no porão do navio. O cenário era brutal em sua beleza selvagem. A terra, embora mais generosa que a de Cismon, vinha envolta por uma muralha de mata fechada, espessa e úmida, que parecia respirar com vida própria. O calor era uma presença constante — não apenas no ar, mas na pele, nos ossos, nos gestos — uma umidade pegajosa que apagava a distinção entre suor e esforço.

O trabalho começava antes do sol e se estendia até a última claridade do dia. Abriam-se clareiras à força de machado e foice, arrancavam-se raízes com mãos nuas e enxadas cegas, queimavam-se os restos para transformar o mato em lavoura. Os contratos, redigidos em português jurídico e distante, diziam menos do que omitiam. Os direitos eram inexistentes. O fazendeiro paulista que financiava a colônia controlava tudo — sementes, ferramentas, medidas e prazos. A dívida, invisível e crescente, parecia brotar da terra com mais força do que o próprio café.

Mas havia silêncio à noite. Um silêncio profundo, sem sinos, sem vozes de patrões, sem os ecos das ordens que, na Itália, vinham das colinas junto com o vento. Havia espaço. Um horizonte que não terminava em muros de pedra ou propriedades alheias, mas se abria em linhas largas, cobertas por um céu desmedido, tingido de azul escuro e pontilhado por estrelas que pareciam mais próximas do que nunca. Ali, sob aquele céu, com a enxada ainda quente entre os dedos e o cheiro de terra virgem entranhado na roupa, Leone teve pela primeira vez a sensação de posse — não legal, mas existencial.

Não possuía títulos, não conhecia a língua dos que mandavam, nem tinha qualquer garantia de futuro. Mas o chão onde pisava não lhe fora negado. Podia plantar. Podia construir. Podia morrer ali — e não mais como intruso, mas como parte da paisagem. E isso, para um homem moldado pela escassez, era mais do que liberdade. Era começo.

Junto do irmão e de outros colonos vindos das encostas da Europa, Leone participou da lenta e dolorosa tarefa de erguer algo que se pudesse chamar de lar. A casa, moldada com barro extraído do próprio solo e madeira cortada a golpes de machado nas bordas da mata, foi levantada aos poucos, entre o cansaço das jornadas e a urgência da sobrevivência. As paredes, reforçadas com varas trançadas e secas ao sol, não protegiam do calor nem da chuva, mas delimitavam um espaço próprio — um refúgio onde o corpo podia descansar e o espírito ensaiava o gesto esquecido de pertencer.

O solo, escuro e úmido, parecia prometer fartura, mas exigia trabalho incessante. Leone limpou as clareiras à força de braço, queimou os galhos acumulados em fogueiras que iluminavam a noite e, com dedos feridos, lançou as primeiras sementes de milho e café. O café, ainda jovem, era uma aposta que exigia paciência. O milho, rápido e teimoso, brotava com uma força quase insolente, como se quisesse provar que ali a terra, enfim, respondia.

Vieram as provações. As chuvas tropicais desabavam com fúria, inundando caminhos e arrastando semanas de esforço em poucas horas. Pragas invisíveis consumiam as plantações durante a noite, deixando os colonos no desespero da espera pelo próximo ciclo. A malária, silenciosa e implacável, instalava-se sem aviso: febre alta, delírio, suor frio e corpos tombando sem resistência, enquanto o mato ao redor crescia sem parar.

Mas Leone resistia. Com o facão, abriu picadas pelas colinas, ajudando a cortar estradas que ligavam nada a lugar nenhum — mas que um dia levariam alguém a alguma parte. Carregou pedras por dias para desviar o curso estreito de um riacho, livrando o terreno das enchentes e garantindo o primeiro pedaço de terra firme para o plantio de café em escala. Cada metro conquistado parecia roubado da floresta à custa de carne e vontade.

Não possuía documento algum que atestasse sua liberdade — nenhuma carta, nenhum selo, nenhum papel com firma reconhecida. Mas o que carregava nos ombros era mais valioso do que qualquer alforria oficial: era a consciência de que, pela primeira vez, a própria força definia seus limites. Sem patrões à vista, sem nobres sobre a colina, sem senhores na sombra, sentia-se, pouco a pouco, liberto — não por decreto, mas por obra do próprio suor.

Aos domingos, quando o sol cedia mais lentamente ao fim do dia e o trabalho recolhia seus instrumentos, Leone se sentava ao lado de Angelo num velho toco de árvore, já alisado pelo uso repetido, como um altar silencioso para o descanso merecido. Diante deles, o vale adormecido se estendia em curvas suaves, entremeadas por manchas escuras onde os primeiros cafezais começavam a fincar raízes. As plantas, ainda jovens, tremulavam com o vento como se respirassem. Era pouco, mas era promissor. Cada fileira de mudas era como uma frase escrita num idioma novo, incerto, mas cheio de futuro.

Ao redor, a paisagem já não era mais puro mato. Brotavam cercas de varas, pequenas hortas, galinheiros improvisados. As crianças, de pés descalços e risos soltos, corriam entre os troncos de bananeiras, esgueirando-se por entre os cafeeiros como se brincassem de moldar o destino. Os filhos de Angelo, nascidos ali, já falavam português com sotaque de colono — aquele português amassado, entortado pelo italiano rústico dos pais, mas ágil, veloz, atento ao mundo novo. Eram filhos da travessia, filhos do esquecimento parcial, herdeiros de uma língua que começava a se calar dentro das casas de barro.

À noite, quando o calor se dissipava e o vento morno atravessava as frestas do teto, Leone se recolhia à rede improvisada no canto da palhoça. O corpo exausto parecia pesar o dobro, mas o sono chegava sem pressa, carregando lembranças que não mais o dilaceravam. Em seus sonhos, voltava a ver as montanhas da Valbrenta — as encostas nevadas, os sinos longínquos, a curva do rio sob o céu pálido. Mas os sonhos já não vinham como lamentos. Não doíam mais como ausência. Eram despedidas brandas, sem pressa, como quem olha de longe algo que foi, e que deixou de ser sem rancor.

Naquela terra distante, sem mapas precisos e sem futuro garantido, Leone percebia, sem precisar nomear, que não era mais o mesmo homem que partira. O que antes era perda, agora era transformação. E no silêncio dos domingos, entre o som dos grilos e o balançar leve da rede, aprendia a dizer adeus sem palavras — e a permanecer sem raízes na terra antiga, porque as novas já haviam começado a crescer.

Nunca voltou à Itália. O mar que cruzara uma vez se transformou, com o tempo, numa distância definitiva, não apenas geográfica, mas existencial. Tampouco escreveu mais cartas. O papel e a tinta, que um dia carregaram esperança e notícia, tornaram-se supérfluos diante da realidade concreta dos dias que se repetiam sob o sol do interior paulista. Sua história, como a de tantos outros que atravessaram oceanos com mais fé do que certezas, desapareceu lentamente nas dobras espessas do tempo — onde o anonimato engole os nomes dos que não deixaram monumentos, apenas pegadas.

Restaram vestígios esparsos: um registro de batismo manuscrito num livro paroquial amarelado pela umidade, uma lápide simples no cemitério da colônia — já sem data visível, coberta por líquens e folhas secas — e o tronco robusto de uma figueira plantada por suas mãos, que ainda cresce, silenciosa e firme, diante da casa de barro onde viveu seus últimos dias. A árvore, com suas raízes profundas e sombra generosa, é talvez o único testemunho vivo de que ali houve um homem que resistiu ao tempo com mais obstinação do que palavras.

Sob os céus largos e inclementes do interior de São Paulo, Leone Valdagno encontrou, enfim, aquilo que sua aldeia natal jamais lhe oferecera: a dignidade que nasce do esforço reconhecido pela terra. Não foi homenageado, não foi lembrado em discursos, não inspirou estátuas. Mas ali, onde o solo vermelho se mistura ao suor dos que o trabalharam, fincou seu destino. Não o de mártir, nem o de herói — mas o de um homem comum que, mesmo sem glória, ousou tomar nas mãos a própria sorte.

E foi com calos, cicatrizes e silêncios que selou sua jornada. Não buscava eternidade, mas espaço. Não queria louros, apenas chão firme. E, nesse gesto modesto, quase imperceptível, conquistou a mais rara das liberdades: aquela que nasce não do poder, mas da permanência.

Nota do Autor

Este livro nasceu de uma carta verdadeira, escrita por um emigrante italiano do século XIX a seus familiares deixados para trás, em Cismon del Grappa, um pequeno comune encravado entre montanhas e silêncios. Suas palavras, carregadas de fé, ternura e exaustão, ecoaram fundo como se fossem o sussurro de milhares de outros homens e mulheres que, como ele, ousaram romper as amarras da terra natal em busca de liberdade — ou ao menos, alívio.

A história de Leone Valdagno, embora fictícia, foi tecida com os fios verídicos de uma diáspora esquecida: a dos camponeses do Vêneto que atravessaram o Atlântico rumo ao interior do Brasil. Não vieram com glórias nem honras. Vieram com calos, coragem e promessas pendendo dos ombros.

Aqui, não há epopeia triunfal. Há a lenta construção de dignidade em meio a matas cerradas, contratos opacos, febres tropicais e terras por desbravar. A narrativa busca honrar os gestos pequenos e heroicos daqueles que ergueram suas vidas no barro, sob sol inclemente, longe de tudo o que conheciam.

Este livro é uma ficção, mas os sentimentos que o moldam — saudade, esperança, renúncia — são inteiramente verdadeiros. Que ele sirva para lembrar que a história também é feita por aqueles cujos nomes não constam nos livros escolares, mas cujas pegadas ainda estão cravadas nas encostas e plantações do Brasil profundo.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


quarta-feira, 19 de novembro de 2025

La Saga de Giovanni e Maria R. – Da Cismon del Grappa fin a le Floreste del Rio Grande do Sul


 

La Saga de Giovanni e Maria R. – Da Cismon del Grappa fin a le Floreste del Rio Grande do Sul

La vècia casa de piera de Cismon del Grappa, ’ndove che Giovanni e Maria R. i ga vissù, la resta come testimónea silensiosa de un passà duro. Le pareti oramai consumà, el piso fredo e la scaleta streta conta la stòria de generassion che le ga passà drento. Da quel posto sui prealpi vèneti, tra montagne e boschi, la mancansa de speransa ´nte l’Itàlia pòvera de fin del sècolo XIX la ga spentonà el casal a scampar via, seguendo tanti altri compaesan che i sercava ’na vita nova.

´Ntei ùltimi 25 ani del sècolo XIX la vita la zera storta par i pìcoli agricoltori, sopratuto par chi che laorava ´nte le zone pì montagnose, ’ndove che la tera rendea poco. La famèia de Giovanni vardava le racolte calar ogni ano, e Maria, straca e preocupà, sercava strade par mantegner vivi i fiòi. Restar volea dir misèria; partir volea dir risco, ma anca speransa.

El adio vero el ze scominsà quando Giovanni el ga serà la porta de la vècia casa par l’ùltima volta. La cesa de la Madona del Pedacino ´ndove lori i se ga sposà, i parenti a do passi, i amissi de ogni zorno: tuto zera restà indrìo. Quela partensa zera ’na rutura che no gavea ritorno.

´Nte la traversia del ossean, el navio stracarico che el ga partì del porto de Génova el zera un inferno de odor de carbon, de corpi mal lavà e malatie. Maria, presa da la febre e da la fiachessa, no la ga resistì. El so corpo el ze stà consegnà al mar, impacotà in ’na lona rùvida legà con soga. Quel suon smorsà del corpo che toca l’onda scura el ze restà registrà par sempre ´nte la memòria de Giovanni e dei fiòi. Quela pèrdita la ga segnà par sempre la famèia.

Quando finalmente lori i ga vardà el Brasil, el dolor zera ancora vivo, ma la vita domandava coraio. ´Nte le colónie taliane del Rio Grande do Sul, Giovanni el ga alsà un riparo con rami de le àlbari abatù e baro, scominsiando a far neto la mata grossa. Le noti le zera pien dei urli de bèstie selvàdeghe, e par tegner sicuri i fiòi el tegnea un fogo sempre ardendo davanti a l´assesso de la tana.

Con el passar del tempo, la tera netà la ze diventà campo de piantassion, e le sementi taliane le ga meso radise ´nte la tera brasilian. I fiòi, sobrevissù a la traversia, i ga cressù forti come Giovanni e Maria. Anca i dissendenti lontan che no conossea ancora el Vèneto i ga portà drento la memòria de quela vècia casa e del sacrifìssio grande che gavea dado origin a tuto.

Incòi, quando qualche dissendente torna in visita a Cismon del Grappa, el sente che le piere de la vècia casa no conta sol el tempo, ma anca coraio, dolor, speransa e rinàssita. La stòria de Giovanni e Maria R. la resta ’na prova del sacrifìssio che ga donà vita e futuro a tante generassion brasilian de orìgene vèneta.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



terça-feira, 18 de novembro de 2025

A Saga de Giovanni e Maria R -Da Antiga Casa em Cismon del Grappa ao Recomeço nas Colônias Italianas do Rio Grande do Sul

 


A Saga de Giovanni e Maria R.

Da Antiga Casa em Cismon del Grappa ao Recomeço nas Colônias Italianas do Rio Grande do Sul


A antiga casa de pedras onde Giovanni e Maria R. viveram, em Cismon del Grappa, permanece até hoje como testemunha silenciosa do passado. Suas paredes gastas, o piso frio e a escada estreita carregam marcas de gerações que ali cresceram. Quem percorre aqueles cômodos percebe que cada detalhe contém a memória de decisões que mudaram destinos inteiros. Foi desse lugar, situado entre montanhas e bosques do Vêneto, que a falta de esperança naquela Itália, que agora mal conheciam, empurrou o casal que seguindo o exemplo de tantos outros vizinhos decidiu partir em busca de sobrevivência e esperançam outro país

O final do século XIX foi especialmente duro para os pequenos agricultores da região, mais ainda para aqueles que viviam naquelas zonas montanhosas, onde a agricultura era de subsistência. A falta de terras, o declínio da produção e a pressão demográfica tornavam impossível sustentar uma família apenas com o trabalho agrícola. Giovanni observava a cada ano a diminuição das colheitas, enquanto Maria buscava alternativas para manter os filhos alimentados. Permanecer significava enfrentar a pobreza crescente; partir oferecia risco, mas também a chance de um futuro menos incerto.

A despedida começou muito antes do embarque. Ela ocorreu no momento em que Giovanni fechou pela última vez a porta da velha casa, ciente de que talvez nunca mais tocaria aquelas paredes. A igreja da Madonna del Pedacinho onde haviam se casado, os parentes que viviam a poucos passos, os amigos que faziam parte do cotidiano — tudo ficou para trás. A partida carregava o peso de uma ruptura definitiva, marcada por um misto de dor e esperança.

A travessia do oceano colocou o casal e os filhos ainda pequenos diante de uma realidade dura. O navio, superlotado, transformava o ar em um vapor úmido e pesado impregnado do cheiro de carvão, corpos mal lavados, dejectos humanos e restos de comida apodrecidos. As condições no porão eram insalubres, favorecendo doenças que se espalhavam rapidamente. Maria, debilitada por uma febre súbita e exaustão, não resistiu ao avanço da enfermidade. Para o horror da família, ela foi sepultada no mar, envolta em uma lona áspera e firmemente amarrada com cordas. O instante em que o corpo de Maria tocou a superfície escura do oceano — produzindo um som abafado que se misturou ao balanço inquieto das ondas — permaneceu gravado de forma indelével na memória de Giovanni e dos filhos. Logo após o impacto, o mar a recebeu com um movimento lento, solene e inevitável, como se a escuridão líquida se abrisse apenas para consumi-la. Décadas depois, já adultos e enraizados em terras muito diferentes daquela travessia, os filhos ainda relatavam aos mais jovens aquele momento de terror silencioso, revivendo, a cada narrativa, o peso irreparável da perda que os acompanharia para sempre. A morte de Maria durante a viagem alterou profundamente o destino da família e transformou o trecho final da travessia em um exercício extremo de resistência emocional, física e espiritual para Giovanni, que assumiu sozinho a tarefa de proteger e conduzir os filhos rumo ao desconhecido.

Quando finalmente avistaram o Brasil, a dor da perda ainda pulsava, mas a necessidade de sobreviver exigia novos esforços. As colônias italianas no Rio Grande do Sul ofereciam terras acessíveis, porém totalmente cobertas por mata densa. Giovanni instalou a família em um abrigo improvisado feito de galhos de árvores e barro e iniciou um trabalho diário de desmatamento e abertura de roçados. As noites eram marcadas pelo som de animais selvagens que rondavam ameaçadoramente o pequeno abrigo cheio de frestas. Para proteger os filhos, Giovanni mantinha sempre um fogo aceso diante da entrada, criando uma frágil barreira entre a escuridão e os perigos da mata.

A adaptação foi lenta e exigiu resiliência incomum. O clima úmido, o solo ainda bruto e a ausência de vizinhos próximos reforçavam o isolamento. No entanto, a lembrança de Maria e da casa em Cismon del Grappa servia como impulso para continuar. Cada árvore derrubada, cada pedaço de terra cultivado, cada amanhecer protegido pelo fogo da noite reforçava o compromisso de Giovanni com o futuro dos filhos.

Com o passar dos anos, a área aberta na mata transformou-se em gleba produtiva. As novas sementes cresceram em solo brasileiro, assim como as crianças que sobreviveram à travessia. Mesmo sem conhecer o Vêneto, as primeiras gerações seguintes herdaram a força silenciosa que sustentou Giovanni e Maria na decisão mais difícil de suas vidas. Herdaram também a lembrança de uma casa antiga nos pré-Alpes vênetos, que permanece até hoje como referência de origem, sacrifício e esperança.

Quando, ainda hoje, algum descendente retorna à antiga residência em Cismon del Grappa, encontra nas pedras irregulares das paredes muito mais do que marcas deixadas pelo tempo. Ali ressoam os ecos de uma jornada moldada por coragem, perda e renascimento — a trajetória de Giovanni e Maria R., cujo sacrifício ao cruzar o oceano abriu caminhos e possibilidades para todas as gerações que nasceram de sua decisão.


sábado, 2 de agosto de 2025

Radise de Speransa

  


Radise de Speransa

Un romanso de speransa, tera e destin


Capìtulo I — La Vose de Dio ´ntel Vento

Quando Alessandro Bellarossi el ga scrito a la famèia de Cismon, no lo ga fato apena con la pena — ma con l´alma intiera. Ogni parola da quela lètara paresea sgòciar sudor, speransa e l’eco de ‘na traversia ancora ressente. Pì de ´un messagio, el zera un testamento de fede: la promessa sudamericana no la zera un mito, la zera tera — e lu el gavea za calpestà. Vinti zorni primi, con la dona Annetta e i tre fiòi a fianco, Alessandro lu el gavea finalmente tocà la tera scura e ùmida de la Colònia Dona Isabel, strenà tra le brume alte del Rio das Antas, dove la foresta pareva antica come la creassion stessa.

El ghe rivava da un posto ndove i val respirava apena fra le ròsie dei Alpi Veneti — un vilagio modesto e strussià da l’indiferensa del tempo e la gananssia dei signori de la tera. Là, anca dopo l’unificassion de l’Itàlia, la libartà la restava solo ‘na parola mormorà, deta in scanton. I richi gh gaveva guadagnà bandiere e esèrssiti. I pòveri, dèbiti, fame — e tropi fiòi da nutrir.

La traversia no la zera mia solo un viaio: el zera un tàio profondo fra do mondi. El Vapor Roma, pien de contadin, lu el zera partì da Génova come ‘na nave de promesse — ma lu gavea navigà sora un ossean de inssertese. Na seconda setimana, l’odor de corpi e paura el zera pì forte che el sal del mar. Ghe zera morti quatro putèi e do mame. Le orassioni mormorà de note se smissiava con i lamenti sofocà ´ntei pòveri leti, intanto che el bilansio del bastimento ghe ricordava a tuti che la tera ferma la zera un privilègio lontan.

Ma Alessandro no se lassiava sgonfiar. L’alimentava la famèia con pan vècio e coraio. E, quando el ga vardà le prime araucàrie, alte come campanil e cargà de nèbia, lu el ga capì, con ‘na ciaresa che tocava el fondo de l’ànima, che el zera rivà. No a ‘na fin — ma a un scomìnsio.

Ze stà alora che el ga ricordà le parole del vècio prete Giustino, dite ‘na matina freda, prima de la partensa:

"A volte, la vose de Dio la vien del Sud.”

E in quel momento, tra la nèbia de la sera gaúcha e i urli dei òmeni che i taiava la foresta con le manare pesante, Alessandro el ga sintì ‘sta vose. No la zera alta, ne miraculosa. Ma la zera ciara. E la diseva, semplicemente: "Resta. Qua se pianta el destin."

Capìtolo II — La Tera Prometida

La Colónia Dona Isabel la zera ancora ´na picolina civilisassion — ‘na frontiera ndove tuto ghe restava da far. Con  manare lu gavea spalancà clarere che parea ferìde nove in meso a la foresta. I sentieri el zera pantani trabalanti, segnà da le rode dei cari e dai stivai dei emigranti. La tera, anca se selvàdega, la zera de loro. Par la prima volta in vita sua, Alessandro el gavea un toco de mondo che el podea ciamar de so.

Cento ètari par famèia. Un sónio imaginàbile ´nte le coline poarete del Vèneto. E adesso, là, tra i tronchi de araucària e i murmuri lontan dei macachi, lu e i altri coloni i tirava su case con i propri brassi. Ogni tavola inchiodà la zera ‘na orassion. Ogni mure, un scudo contro la paura del scognossesto. La farina la vegniva fata masinando i grani su piere improvisà. El pan el gavea el gosto de sudor, ma anca de libartà.

La lètara che Alessandro la gavea scrìto a so pare, setimane prima, la scomìnsiava con un entusiasmo quasi de putèo:

"Bea posission, tera fèrtile, ària sana, e el goerno el ghe assiste noialtri." 

E par la prima volta in so vita, no el esagerava. L’Impero del Brasile, ansioso de far piantar la gente ´ntel Sud, el ghe dava semense, feramenta basiche, bò magri, e el pì pressioso de tuti i risorsi: el tempo par pagar el lote. Nove mesi de aiuto prima che la tera ghe domandasse risposte. Nove mesi par trasformar la foresta in campi, i baracon in casete. El zera poco, ma el zera qualcosa. El zera pì de quel che la pàtria ghe gavea dà in sècoli.

Lucia, so mòier, la scomensiava a rider de novo — ancora pian, come chi che ghe teme a la pròpria speranza. I piè el zera sempre coerti de fòie fino ai cavéi, i diti gonfi de tanto lavar e portar, ma i oci… i oci ghe gavea tornà quel brilo che i gavea al altar de Cismon. Ghe zera qualcosa ´nte la foresta, forsi l’ària spessa de la matina, che la ghe dava ánimo. Forsi la zera el silénsio sensa fame.

Matteo e Elvira, i so do fiòi grandi, i corea sui campi come bèstie lìbare. I esplorava el mondo novo come se zera un orto de infansia eterna, sensa muri ne confini. I costruiva casete con i rami e i imitava i rumori dei caretieri. I ciamava i visin tedeschi “giganti biondi” e i ridea con l´acento smissià. Elvira la disea de piantar fiori selvadeghi. Matteo, de far ´na roda de aqua.

Anca el pìcolo Paolo, nato in traversia in meso al odor de sal, mal de mar e orassion sofegà, el parea za parte de ‘sta tera. El gavea i pulmoni forti, i oci svèi — e le man strete come se le tenesse za, con ostinassion, le radise de ‘sto mondo novo.

De note, quando el fogo de legna scaldava el pavimento de tera batuda e el vento de le araucàrie el mormurava tra i busi de la legna cruda, Alessandro el guardava intorno e el pensava: "No el ze el paradiso. Ma el ze un scomìnsio. E el scomìnsio, certe volte, el ze pì sacro de el fin."

Capìtolo III — Giacomo e il Fango de Sangue

El ze rivà quase note, quando el sole se nascondeva lento drio le creste de la montagna e il cielo se colorava de rame e vin. La carossa improvisà sbalotava par la strada scavà ´ntel fango, tirà da do boi magri e coerta con una tela segnà dal sale e dal tempo. Su di sora, con i oci scavà da la traversia e la barba longa fin al peto, el ghe gera Giacomo Bellarossi, il fradel pì zòvene de Alessandro.

Lucia la ze sta la prima a vardarlo, mentre che la tirava aqua con el sècio dal rieto. Lei la ze saltà. E la ze strassà. I putei ze vegnù drio, scalsi e sporchi, come can de muta che ritrova el paron sparì. Alessandro lu el ga molà la manara lì dove zera e el ze ndà pian pian fin al fradel.

I se ze abrassà in silénsio par un bel toco. Un abrassio de chi che porta la stessa crose e la stessa fede — la fede che l’altro no se gaveria mai mosso se el destin el ze ancora inserto. Ma i oci de Giacomo no i zera lusenti. No come queli de chi che ga trovà la pase, ma come de chi che ze scampà da na guera.

— “Cismon el ze pì vodo, Sandro. E pì vècio. El prete el ze morto. La mama la ze restà. La ga deto che il so cuor no el traversaria el mar... e forse la ga rason.

— “Te vien par speransa... o par desperassion?

— “Cossa che cambia?”

Lu el ga instalà Giacomo ´ntela baracca pìcola drio la casa grande. Par la prima setimana, Giacomo no parlava massa. El dava na man dove el podea — segava legna, cavava fosse, lu badava ai putei quando Lucia la ghe dovea ndar al russelo. Ma ´ntei so gesti ghe zera ´na tension dura, come se el spetasse che la tera ghe cascasse soto i piè.

E dopo ze rivà el zorno de la disgràssia.

Ze sta ´na matina coerta de nèbia, quando Giacomo lu el ze ´ndà con el Matteo al campo pì basso, drio al limite de la proprietà, par mèter su le recinsion. Un grupeto de coloni visin, de origine tedesca, laorava de l’altra parte del confine segnà. Ghe ze sta paroe. Dopo, strili. Dopo, el colpo seco de un pugno.

Matteo lu el ze tornà corendo, piansendo come un mato, tuto sporco de fango e sangue. Giacomo lo gavea colpìo in testa con un peso de legno. El zera cascà in terra, fermo, con la fàssia sfassià da un tàio fondo in fronte. I visin i disea che el gavea prinssipià lu. Che el zera sta preso da un colpo de ràbia.

“El disea che la tera la zera nostra, che el confine no zera giusto. Dopo lu el ga bestemià. E el ga siapà su el facon...”

Alessandro lu el ze rivà a tempo par evitar un linsàgio. El ga tirà indrio el fradel, mentre Lucia la strilava ordini e Elvira la corea a tor aqua calda. Paolo ghe strilava ´ntel so letino, senza capir el caos.

Par tre zorni, Giacomo lu el ze restà fra la febre e l’ombra de la morte. El delirava in italiano, el murmurava el nome de la mama, el contava i fiòi che no gavea. Alessandro no el ga mai lassà. Lucia lei la pregava.

La sera del quarto zorno, quando i grili i ze tornà a cantar, el ga verto i oci.

“Tanta tera, Sandro... e pur... se se litiga par un palmo.”

“Forse no ze la tera, Giacomo. Forse noaltri portemo ancora drento le catene de ndove vegnimo.”

Ze sta alora che tuti due i ga capì: la tera zera fèrtile, sì. Ma anca selvàdega. E il sangue, ´na semensa che no ghe podeva far nasser.

Capitolo IV — El Arado e la Promessa

La sicatrisse na fronte de Giacomo no la ze sparì. La ze restà come ´na riga storta e viola, che ghe traversa la fronte come un segno marcà con el fogo: anca la tera promessa la ciama sangue in càmbio de pase.

´Ntei zorni dopo la zufa, Alessandro el ga radunà i visin — italiani, tedeschi e qualcuni pochi luso-brasilian — soto el vècio capanon del colonel Gasparini, l’amministrador de la colónia. Ghe voleva pì de legno e tera per far un paeseto. Ghe voleva rispeto, regole s’empresie, e soratuto, fidùssia.

“Nissun el ze vignesto da l’altra banda del ossean par scominsiar na guera qua,” el ga deto Alessandro, in piè sora ´na cassa, la vose roca e con el so asento pesà. “Semo vignesti par costruir qualcosa che i nostri fiòi no gavarà da scampàr par catar.”

No ghe ze sta aplausi. Solo qualche ceno de capelo. Ma el zorno dopo, el colono Hans Jäger — queo stesso che avea minasià Giacomo — el ga lassà na cesta con pan nero e un saco de semense de segale sora la veranda dei Bellarossi.

Ntele campi, la tera ze scominsià a cambiar in solchi. L’aratro prestà dai visin el sgrignava drìo i buoi, scavando vene ´nte la tera scura. Giacomo, con la testa coerta da un vècio capel de ala larga, el zera el primo a levarse con el sole e l’ùltimo a lasar la zapa. Come se’l volesse espiaiarse davanti ai dei de sta nova tera.

Lucia la curava la rossa del fasòi e le galine, e trovava anca el tempo de insegnar a Elvira a lesar, doparà un vècio catechismo che la gavea portà su sconto fra le robe de la traversia. Matteo el cresseva svelto, con le spale dure come legno. Paolo el imparava a caminar sora la tera batua de la veranda, inciampando ´ntei scalini de legno e ridendo come se’l mondo el zera solo quelo: sol, formenton e el odor de la mama.

A la fin del autun, prima che i venti fredi ghe tagliasse la zona come lame, la ze vignesta fora la prima safra. Pìcena, ùmile. Ma la zera de loro. I sachi de formenton e patate dolse i ze sta portà ´nte’l capanon comun, dove na vècia asse de legno la servea de altar par ringraziamenti. El prete Celestino, vignesto da Caxias, el ga fato na messa fora, soto na croce fincà tra do pini bravi.

“La tera la xe dura, fiòi miei. Ma la ze vèrgine. E come tute le vèrgini, ghe vole paciensa, cura... e fede,” el ga deto, mentre el vento el sbateva fra le tavolete del teiado ancora incompleto.

Quela sera, ghe se sta mùsica. Un vècio violin, do armoniche e vosi roche che cantava le cansoni del Véneto. Le risa le ecoava fra la boscàlia. Par la prima olta da che i gavea passà l’ossean, i Bellarossi i se ga permetesto de balar. Anca Giacomo. Soto le stele, con un goto de vin aspro ´nte le man e i pantaloni sporchi de tera, el ciapava el cielo come se’l ghe domandasse perdon par gaver dubità.

Ze sta in quelo momento che Alessandro el ga ciapà un palo, lo ga segà e sora scrisse el nome de la famèia — "Bellarossi, 1888" — e el ga fincà al’entrada del campo.

No el zera solo un marco de possesso.

El zera ´na promessa.


Capìtoło V — L’Ombra su la Siera


Lo inverno el ze rivà calsado, come ‘n can de càssia che se move pian. Sole coste de la Siera Gaúcha, el fredo el calava fra łe piante come ‘na nèbia viva, coprindo łe colture con ‘n velo de sugo e strensendo le ossa dei pì veci come un morseto invisìbile.

El formento el se secava prima del so tèrmino. I fasòi i marsiva in meso łe pàie. E i bovi, che prima i zera mùscoli in movimento, adesso i mostrava le coste come squeletoni che camina.

Lucia la se sveiava tossendo, invelà in ‘na scoia reparà con fil de telar. Paolo — che gavea da poco imparà a caminare — el gavea febre ogni note. Alessandro el cavava fossi par far ndar via l’aqua che se fermava ntela tera, ma el zera come provar a svodar el mar con un cuciaro. E quando le vivande le ga scominsià a mancare su le tole dei visin, l’ombra pì temuda la ze entrà par le fese de łe finestre: el dùbio.

“E se le promesse i ze tuto un falso?” i spetava alcuni ´nte łe reunion de sera.

“E se l’imperadore el ga lassà noaltri come ga fato i nostri signori in Itàlia?”

E po’, i ga scominsià a rivar le vosi.

I diseva che a Porto Alegre l’Impero el trema. Che i abolissionisti i volea finire con el laoro schiavo, e che i fasendieri, par paura de perder i laoradori, i ga scominsià a vardar con sospeta i imigranti lìbari che adesso i ga le tere e l’aiuto del governo.

La tension la montava come ‘l fume dai fogolari a lena. Alessandro el sentiva in ària: qualcosa zé drio a rivar.

´Nte la seconda setimana de lùlio, el Gasparini — el vècio aministradore de la colónia — el ze rivà a cavalo, tuto bagnà e con el muso pì bianco che le neve del Véneto. El portava male notìssie: I aiuti del governo i saria sta fermà.

“L’ordine el vien da Corte. I dise che le casse ze vote. Che serve taiar le spese ´nte łe colònie.”

El silénsio che el ze vegnesto dopo ‘sta frase el ze sta pì pesante del fredo che intrava par la porta verza del cason.

— “Ma i nove mesi de aiuto che i ga promesso?” el ga domandà un colono tedesco, strensendo le cìlia.

El Gasparini no el ga deto gnente. El ga solo tirà su el capoto e el ze ‘ndà via. Lei ga via con el cavalo le ze sparì ´nte el fòsso, come se le notìssie le volea scondarse.

Lucia la ga strensù forte le man de Alessandro. No el ga dito gnente. El ga solo vardà i fiòi, che i ze drio a zogar con i rami drio al fogolar.

Ze stà quela note, dopo che tuti i gavea sonià, che el ze rivà a na decission.

Intel silénsio de ła cusina, soto la lampada de oio, el ga tirà fora el vècio quaderno che el gavea portà da l’Itàlia — l’ùnica eredità del pare. Là, frègole le recete de vin e le conti de le racolte, el ze scominsià a scrivar un piano. No un piano par resistar. Ma par prosperar, anca sensa lauto de l´impero, anca sensa promesse.

El scriverà ai parenti che i ze rimasti in Italia. Lori i mandarà semense, racònti, fotografie. Lui organizerà ‘na cołaborassion rudimentale con i visin, par far sì che chi ga racolto de più el sostegna chi ga racolto de manco.

— “La tera la ne vol qua,” el ga murmurà, come se confessasse un segreto ala note.

El zorno dopo, el ga radunà diese òmeni sol campo drio a la capela. Zera l’inìsio de na nova fase: la sopravivensa con l’union. I zera soli adesso. Ma no impotenti.

Dopo el ga entrà a casa, Giacomo el ze drio a limar ‘na zapa. Le scrise i saltava come le luse ´nte la sera. Matteo, che ga tredise ani, el ze drio a construir ´na trapa par i tatù con el legno de rami. E Elvira, desegnando letere ´nte la tera con ‘na frasca, la ze drio a scrivar el nome de la mare.

Lucia, vardando tuto da la finestra, la ga strensù Paolo drio el peto e la ga sussurà:

“L’ombra la pol ancò vegnir, ma noaltri... semo fata de luse.”


Capìtulo VI — Fumegà ´ntela Capela


El campanel de la capelina rinsòna tre olte — 'na toca lenta, de luto, che no proclamava mesa, ma tristessa. La fumassa bailava ancora tra i pini quando Alessandro el ga rivà, con el cuor a corer e la zapa su la spala. La capelina de legno, tirà su con la donassion e el laor de tuti, la zera a metà brusà. No 'l fogo la ga magnà tuta, ma l’altar el zera nero de fumo, i banchi scuri, e la Madona cascada, con la fàssia crepà e i òci puntà per tera.

El prete Giustino, pàlido e sensa fìa, zirava intorno a la porta mesa verta. Al so fianco, Giacomo el strenseva i pugni cussì forte che i nodi pareva ossi de cristalo.

“Son rivà bon’ora par ressitar la mesa… e go catà sto desastro.”

Alessandro el se toca la fàssia con la man. Ghe zera un odor dolse-amaro in l’ària — legno brusà mescolà col òlio de le candele e qualcos’altro: òdio.

“Ze sta qualcun che la ga meso fogo?” domandò sensa tanti giri.

Giacomo el rispose a denti strensià:

“No ze stà caso a infiamar sto inferno.”

Quela sera, tuti i colòni i se ga radunà soto el teiado dei Brandt — i primi rivà i ze i tedeschi, prima dei italiani. Se vedea tension ´ntei òci, paura nei sussùri e na domanda che pasava tra tuti i silénsi: chi che podaria far questo... e parché?

El prete Giustino el se alsò:

“Semo soto i òci. Ghe ze zente che no vol noaltri qua. Né le nostre funsion, né le nstre scuole. Mancoman che el nostro progresso.”

Gasparini, l’aministrador, el rivò tardi, con do soldà brasiliani a caval e na fàcia impensierìa. El provò calmar i ànimi co promesse: el governo el gavaria investigà, ghe saria pì securessa, ma nissun vandalismo se podaria scusar. Ma nisun ghe credeva. Cossa valeva 'na capelìna brusà in frente a la vastità de un império?

Alessandro, drio la porta, el parlò basso ma deciso:

“Se i vol farne paura, i ga sbaià popolo. Semo rivà de un posto brusà de guere e fame. Gavemo superà el mar, la peste e el fango. No sará fogo de vigliacchi a farne scampàr.”

Le so parole le pare 'na scintila in meso a la paia seca de l’ànimo dei colòni. Matteo, che ascoltava co i òci sbarelà, el strense la man del pare in silénsio.

El zorno dopo, i ga tacà a rifar la capelina.

Ogni omo el portava ´na tàvola, un cavìo, un martelo. Ogni dona, na candela o 'na imagine salvà dal fogo. Anca i putei i dava na man, catando piere par rifar le fondamenta. El prete Giustino el soriseva par la prima volta dopo tanto.

Lucia, intanto che la mescolava la farina magra par far el pan, la disse piano a Alessandro:

“I volea spenser la fè, ma i ga insendià el coraio.”

No tute le famèie però le ga reagì con forsa.

Ghe ze sta chi che ga ciamà a desister. Una carossa pien la ze partì da la colónia a sera. I zera i Cortese, che no i gavea piò resistensa: un fiòl col tifo, 'na racòlta persa, e adesso… paura.

Ma quando la caròzza la xe pasà dal camp de Alessandro, lù el ga tignù Paolo in brasso e el ga salutà. No par dir adìo, ma par avvisàr.

“Se sempre scampemo quando el mondo el trema, no gavaremo mai tera soto i piè.”

La sera che la nova crose la ze sta messa sora el teiado de la capelina, i campanèi i ga sonà de novo. Stavolta no de luto. Ma de resistensa.

Soto el cielo stelà del sud, intanto che i colóni i cantava a coro — in italiano, tedesco, portoghese —, Alessandro el gavea ‘na certessa: la colónia no zera pì un riparo, ma ‘na pàtria, fata de coraio, fè e ferìe.

E ogni pàtria, prima o dopo, la vol i so eròi.


Capìtolo VII — Le Vose del Silènsio


L'estate vegneva calda massa, seca massa, e i venti dal Sud, che prima portava solievo, adesso portava sol pòlvere. La tera se induriva. Le piantassion de formento se rimpicoliva soto el sol implacàbile. E con la sicità vegniva n'altro mal: el silènsio.

No el silénsio de la pase, ma quelo che precede l'esplosion.

Da quando che la capela ga brusà, le noti ´nte la Colònia Dona Isabel la ze diventà longhe massa. I òmeni se tirava a casa presto, con le sciopete tacà al cavedal. Le done parlava soto vose drio le cortine. Fin i putei parea che ´ndasse pian pianin — come se i so piè se podesse sveiar un mostro che dormiva.

Giacomo passava pì tempo ´nte i campi che a casa. Laorava con fùria. Batèa con la mara sul tereno come se podesse vendicarse de lu. No parlava del fogo, né de la mancansa de Gasparini, l'aministrador. Serava solo i denti.

Alessandro, tute 'ste robe le vedea con inquietudine. Ogni gesto taco era 'na alarma. Un pòpolo che smete de parlare su la sòlia de 'na rovina — o de 'na rivolta.

Ze stà Matteo el primo a capir che ghe zera 'na diferensa. Tornava da casa de un colono tedesco, Hans Müller, quando 'l ga sentì vose sofocà che vegniva dal tereno. El zera note. Là drento, ombre I se moveva soto la luse dèbole de 'na lamparina. Una la ga riconossesto: quela de so pare, Giacomo.

“Vien per nu,” diseva ´na vose. “Vogliono le nostre tere. Prima brusano la capela, dopo sbrissa i pì dèbole. Pian pianin, fano noialtri scampar.”

“Gavemo da far qualcosa prima che sia tarde.”

Matteo el ga tratenù el fià. Un piano se stava architetando. E so pare, Alessandro, no el savea gnente.

La matina dopo, Matteo ga contà tuto. La fassia de Alessandro la ze diventà dura.

“Se femo guera sensa prove, diventemo briganti. Se tacemo, diventemo complici de la nostra pròpia rovina.”

Lucia, che stava a sentir in silénsio, ga deto solo:

“Forse dovemo parlar con chi ancora ascolta.”

El zorno dopo, Alessandro el ga preparà el caval e ze partì verso Nova Palmira, un vilàgio distante tre lègue, ndove ghe zeva un posto imperial e un delegado. Portava con lu ´na copia de la carta de donassion de le tere, el raporto del prete Giustino sul inséndio, e el diàrio del signor Cortese, lassà drio — ndove se leseva 'na frase che dava da pensare: “Semu stà atacà dal timor, no dal nemico.”

La viaie ga durà due zorni. ´Nte la vila, el ga trovà el delegado Abílio Rocha: un omo negro, con i mustassi fini e un sguardo calcolador. El ga sentì tuto, ma no l'ha mostrà gnente.

“Sa ben che l'Impero ga i oci su el Norte. Qua semo retaguardia, signor Bellarossi. Tera de silénsio. E de dimenticà.”

— “Alora che sto silénzio scopie,” rispose Alessandro. “Parché no semo da dimenticar. E gnanca da tacere.

Rocha ga alzà i oci e, par la prima volta, ga sorriso.

“Te sì testardo. Me farè sudar… Ma me piase la gente che no inchina la testa.”

Quando i ze tornà, Alessandro ga trovà 'na tensione pesante. Durante la so assensa, Giacomo e altri òmeni i ga sfidà un grupo de guardie de tera — brasiliani assoldà da un fasendieor de le vissinanse, che se lamentava de ´na sovraposission de confin con la colónia. Ghe ze stà spintoni, spari in ària, e un ferì: el toso Pietro Moretti, colpì a 'na gamba.

El arivo del delegado ga evità el peso. El ga radunà i capi de le famèie, tedeschi e italiani insieme, e ga dito chiaro:

“Se ghe ze disputa de tera, ghe ze la lese. Se ghe ze deliti, ghe ze la giustissia. Ma se ghe ze guera… ghe sarà solo morti.”

Quela note, la colónia ga dormì come chi ga sopravissù a un teremoto.

Lucia la ga acendù 'na candela ´nte la capela nova e ga piansesto in silénsio. Paolo, che cominziava a rampicar, giocava co un steco in tera. Matteo guardava el ciel e sercava fra le stele ´na che ghe disesse che tuto saria ndà ben.

E Alessandro, par la prima volta da che xe rivà in Sudamérica, se ze sentìo picinin. Ma ga capì anca che la libertà — come la tera — se conquista solo con radise fonde e spine sul camino.

Capìtoło VIII — Le Cènare e ‘l Asso

La matina seguente no 'l ga portà alivio, ma solo la consapevolessa che tuto el zera cambià. La bala ´ntela gamba de Pietro Moretti la zera diventà un símbolo: l'inosénsa de la colónia l'aveva insanguinà. E gnente podea tornar drìo.

Giacomo ndava e vegnia su e zo par la veranda de casa, con i òci rossi de vegìa e ràbia. La mare de Pietro, dona Celina, ghe gaveva urlà la sera prima.

"Te ghe porté mio fio a la guera! No se copea par la tèra!"

Lui no el gavea risposto. Solo ghe gavea sercà i pugni e voltà la fàsia. La sólita dolor, quando vegnia, el la trangugiava in silénsio.

Intànto, Alessandro pasea de cà in là, par tor fora la pasión, parlando con i capi de famèia. Ghe portà parole de pase, ma anca de atenssion. L'arivo del delegà Rocha el zera sta un passo, no na vitòria.

"No gavemo nemìghi fra de noialtri", diseva. "Ma ghe ze chi che vole che ghe sia. E questo... la ze pì pericoloso del fogo o del fero."

In cesa, refata de corsa, el prete Giustino gavea convocà i coloni par na messa de reconsiliassion. Ghe zera pì mancansa che presensa. Tra queli rivà, sèrti stava con le bràssia crusà; altri no pregava. La comunità la zera spesà, come un toco de argila crepà dal sole.

Intla predica, el prete gavea parlà de Giob. De pèrde, de pròve, de fede ´nt'el meso de la desolassion.

"Ma anca Giob", el gavea deto co ‘na vose tremà, "gavea amissi che se sedeva colui int'el tòco. E, certe ólte, pì importe che capìr el dolor... la ze no lassàrla da sola."

A fin messa, Matteo gavea vardà Elvira che acèndea ´na candeia par Pietro. La candeia la zera pìcola, ma firmo. Ghe zera qualche cosa de novo ´nte i so òci. No la zera paura — la zera ràbia contenù. Na putela de diese ani che l'avea capì che anca l'infansa podea brusà ´ntel fogo del mondo dei òmeni.

El dì dopo, Alessandro el ga sta ciamà da Hans Müller. Là, el ga trovà un mapa — vècio, desbalà, ma ufissiàe. El mostrava le confine de le tere imperiai ´ntel Alto Taquari.

— "Varda qua", el disea Hans, indicando con el dito grosso e rugòso. 

"Le tere del fasendero Fontoura finìsse prima del nostro fiume. La colónia la ze sicura. Queło che’l vol... la ze poder. No i ectari."

Alessandro gavea assentì. No el zera solo question de tere — el zera de controlo. Fontoura el volea che i italiani savesse che i stava soto la so ombra. Un zogo de intimidassion sutil, fata de violensa dei só zagunsi e de rumore sparpalià fra i indìgeni. Na tàtica vècia.

Ma i coloni, sensa saver quelo, i gavea scominsià a armàrsi.

"Ghe serve far qualcosa prima che ghe sia un altro Pietro. O qualche cosa de pedo."

Na setimana dopo, Alessandro el ga partì de novo, stavolta par Caxias. Là, ghe zera ‘na sede de l’Intendensa Provinsial. El ga portà con se la mapa. E le so parole.

Ghe gavea portà anca Matteo. El toso el insìstea. El volea imparar. El voléa proteger. No el zera pì un putelo — el zera fiol de colono, e questo el càmbia tuto.

La strada la zera polverosa, passando tra campi verzi e boschi spéssi. I gavea dormì in staia, magnà quel che i gavea: pan de frumento, formàio duro, àqua tèbia. A ogni fermada, Alessandro el domandava de Fontoura — e ghe sentìa stòrie. Tere sequestrà. Gropi butà fora. Documenti scomparsi.

Caxias la comparìa lontana come na promessa — e un risco.

Int’el palaso del governo, i gavea stà recevù fredi. L'Intendente, un tal Amaral, vestì de lino bianco, parlava con parole misurà.

— "Sior Bellarossi, savemo de l’importansa de queste colónie. Ma savemo anca che le dificultà la ga nassesto quando i pópoli se insedié sensa comprender i confìni de l’òrdine."

"E che’l sior el ciamé órdine i incendi, le minàce, e le bale che colpisse un toso?"

L’Intendente no’l gavea risposto sùito. El gavea vardà la mapa.

"Ste tere le ga stà trassà dai ingegneri imperiài. Se ghe ze conflìto... lo analiseremo. Ma gavé pasiénsa. ‘Sto Brasil el ze grando. E lento."

Ussiti, Matteo el domandà:

"Papà... el ghe gà sentìo?"

"Ghe gà sentìo. Ma no ghe gà stà ad ascoltar."

Quando i ritornà a la colónia, el clima el zera diverso. Pietro el gavea scominsià a ´ndar con ‘na cròssola fata da Elvira. I òmeni, par òrdine de Giacomo, i scavava trincee discretamente drio le case, come se se preparava a na guera che nisun volea, ma tuti i temea.

E na matina, quando el vento el tornava a sofiar dal Sud — portando l’odor de pìno e umidità — rivò un mesagero.

El portava ‘na lètara. La vegnea da Porto Alegre. La zera ‘na comunicassion ufissial.

E drento, el diseva che el Ministero de l’Agricultura, soto la pression de diversi rapresentanti, el mandava un agrimensor intel posto tra trenta zorni par rivalutar i confìn de la Colònia Dona Isabel.

Lucia la tegnea la carta ´ntele man e la piansea. Par la prima olta, no la zera paura. La zera alìvio.

Trenta zorni. Un mese par resister.

El zogo el stava cambiando. Ma i rischi restava tuti.


Capitolo IX — La Misura de Tute e Cose

El rumore dei cavai rivò prima de la pòlvere.

João Vicente Lisboa apare ´ntela entrada de la colónia ´na matina freda, cuerto in un sopravesto de lana scura, seguì da do soldà e un assistente mulato che portava pransete e un livel topogràfico.

Lù no sorise.

El so sguardo girava par la radura come se stesse mapeando ánime, no ètari. I coloni, in silénsio, lassava i manari riposar. Le fasse sporche, i vestì rabucà, ma i oci... i oci brilava de dignità.

Alessandro rivò par incontrarlo, insieme a Hans Müller e Giacomo. Quando i ga arivà, João Lisboa se smontò del caval con calma. Ghe gavea la man — ma dopo averli studià.

— "Mi son João Vicente Lisboa. Agrimensore oficial, mandato dal Impèro. Go le demarcassion. Ma prima... voio sentir la verità."

El laoro gavea tacà.

Instalà in ´na de le poche case de alvenaria improvisà, Lisboa tacò a laorar come se fosse interrogando un tribunale invisìbile. Sentì testemonianse. Studiò documenti. Visitò i loti. Parlò con el prete. Rivò fin ala crose del putèo morto de sarampo — e no disse gnente, ma resto in zenòcio pì tempo del sperà.

Par tre zorni, el scrisse. Misurò. Comparò mape.

La sera del quarto torno, qualchedun provò a brusarghe el galpon dove el dormiva. El fogo la ze spensè prima — ma un dei soldà se brusò la fassia. Lisboa no mostrò paura. Ghe ordinò solo de montar guarda armada sui sentieri.

El quinto zorno, el convocò ´na assemblea.

La gavea al piè de la grande fighera, ndove i coloni fasea le messe fora porta. Pì de sento persone i zera radunà — putei in spale ai pupà, veci sentai sui tronchi, done con i oci fissà come sassi.

João Lisboa salì su na casseta e parlò come un giudice, ma con la vose de un omo straco:

— "Sta tera la zera promesa con el decreto imperial. E la ze sta conquistàa con zape, sudor e luto. El sigilo de la legalità... la ze qua."

El alzò la mapa sigilà con el sìmbolo del impero.

— "Da sto zorno, la Colónia Dona Isabel la ze riconossù come nùcleo agrìcola de povoamento lìbaro. I loti i sarà intestà ale famèie pionere. Chi che provà a sbutarve fora sarà giudicà secondo la lege de l'omo — e, se servirà, anca da quela de Dio."

Un mormorio passò par la zente. Qualchedun piansè. Altri chiudeva solo i oci.

Giacomo, che fin là zera sta fermo, sussurrò:

— "Gavemo vinto sensa copar nessun."

Ma Hans rispose, amaro:

— "Sì. Gavemo solo sepeli i nostri."

La sera dopo, qualchedun lassò na lètara anónima fincà ´ntela porta de casa de Alessandro. ´Na frase sola: "La tera la podarà aver un paron, ma la paura no ga confini."

No el zera la fin del conflito — ma la zera la fin de i dubi.

Fontoura scampò in Uruguai dopo qualche setimana, abandonando i so zagunsi e i falsi documenti. E par quanto riguarda el traditor tra i coloni — Lisboa lo gavea scovà. Ghe disse de andar via, discretamente, sotto scorta. Gnissun nome el ga deto. La pase costava pì del vero.

Ntei zorni dopo, el rumore de le zape i ga rivà pì forte. Come se ogni colpo ´ntela tera el zera ´na afermassion:

Semo vivi. Semo qua. Sta tera la ze nostra perché l’avemo fata nostra.

Elvira piantò fiori visin a la croce del pìcolo Paolo. Matteo scrisse el so nome sul stipite de casa. Lucia tornò a cantar mentre macinava el frumento. E Pietro... Pietro tacò a copiar ogni pàgina del so quaderno in un’altra letra, più ferma — perché, un zorno, altri potesse leserlo.

João Lisboa partì con el sole a le spale. Prima de ´ndar via, el ghe diede a Alessandro ´na busta sigilà.

— "Ze el registro de la posse legal. Firmà. Timbrà. Tegnelo ben — ma no par vu. Tegnelo... par i vostri nipoti."

E montò sul cavalo, sparendo tra le araucàrie.

La colonia dormì in pase sta note par la prima volta in ani. Ma gnissun se acorse che, lontan, el cìelo stelà pareva pì lìmpido — come se anca Dio stesse respirando con el fià in pase.

Epìlogo: Soto le Piante del Tempo

El vècio Pietro se sentò pian pianin soto l’ombra del pinaro pì vècio de la proprietà.

El tronco el zera grosso come tre òmini messi insieme. I rami i se levava su come brassi de giganti, e el vento che passava tra gli aghi fasea un murmurìo che pareva vosi desmentegà. A canto a lu, la so nipote Clara, de oto ani soltanto, tegneva in man un quaderno de coversio rosso.

— "Nono, contame ancora ‘na volta la stòria de la crose de legno..."

Lui la vardò e sorise. I òci, un poco spenti par la veciaria, i ghe luseva ancora de quel fogo che gnanca el tempo el gavea smorsà. El tocò pian pianin el pendente che pendeva dal so colo — ‘na pìcola crose de fero vècio, che lu stesso l’avea fato con i ciodi veci trovà ´ntel cason brusà.

— "Quela stòria no la ze mia, cara nipote. La ze de noaltri. La ze de ‘sta tera. La ze del sangue che el ga bagnà el teren prima de farlo fèrtile."

E lu scominsiò.

El ga contà del viaio ´ntei barchi streti, del sudor che restava tacà a le tole del vapor Roma. Parlò del so pare, Alessandro, che el scrivea lètare come chi che pianta sementi drento el cuor de chi che zera restà drìo. E de la so mare, Lucia, che la sorideva ancòi dopo aver sepultà un fiol in meso al mar. El descrivea la fàcia de Giacomo, sempre sporca de fango e de coràio. E de Hans, che no l’avea mai abandonà gnissun, gnanca quando l’avea ocasione. Parlò del Pare Giustino e de la so fede che resistiva a le febri, a le perdite, a le malatie. E parlò anca de Giovanni Lisboa — el omo de divisa che no portava spade, ma parole.

Clara la stava a sentir come chi che siapa un tesoro che no se pol veder.

— "E dopo, nono? Cosa la ze sucesso a la colónia?"

Pietro sospirò.

— "La ze cressù. La ze diventà sità. Le ze vegnù le scole, le cese, el mercato. Le case de legno le ze stà sostituì da muri de piera. Ma le radisi... quele no le ze mai cambià."

El segnò con el dito verso tera.

— "Le ze qua soto. ´Ntei fondamento. ´Ntei ossi de chi che ze restà. ´Ntei nomi che gavemo dà a le strade. ´Ntei che no i ze mai partì — gnanca da morti."

Clara la scriveva con calma, con cura. La scriveva con la stessa scritura ferma che el nono ghe gavea insegnà. Quando la ga finì, el sole se gavea già nasscondù drìo i coli. Le ombre le ze vegnù longhe come vèci amissi che i tornava casa.

Pietro el se slevò pian pianin. El vardò verso l’orisonte.

— "Prometi che un zorno ti la contarà a qualcun, Clara?"

La ghe fesse sì con el capo, con quei so do ocioni grande e seri.

— "Prometo, nono."

— "Alora, el ze fato."

Quela note, Pietro el dormì ´ntel quarto ndove lu el zera nato. A canto al leto, el quaderno rosso el stava posà. Sula ùltima pàgina, scrito con na caligrafia ancora de fioete, se leseva:

"Sta tera la ze sta conquistà con coraio, fede e làgreme. E par questo, la ze de noaltri. No perché la gavemo siapà. Ma perché la gavemo amà.”

Nota do Autor

Sto romanzo de Piazzetta el ze nassesto da la memòria coletiva de na saga silensiosa, ´ndove i protagonisti i compare raro ´ntei libri de Stòria. "Radise de Speransa" el ze ‘na omaio ai miliaia de emigranti italiani che, tra la fin de l’Otosento e el prinssìpio del Novesento, i ga lassà drio i so paeseti con le strade de piere, i campi pòveri e le promesse mai mantegnù de l’Itàlia unita, sercando ‘na nova vita in Brasil, ´nte le tere del Sud.

Alessandro Bellarossi el ze na figura inventà, ma el so viaio el fa eco a la realtà de tante famèie vegneste dal Véneto, dal Trentino, dal Friuli e da altre regioni italiane. La stòria la se basa su fati stòrici veri: le dificoltà de le viaie transatlàntiche su vaporeti stracargà, i primi ani de colonizassion inte le montagnete del Rio Grande do Sul, e el laor tremendo par far diventar boschi vèrgini in campagne, caseti de legno in case, e sopravivensa in futuro.

La Colónia Dona Isabel — che incòi se ciama Bento Gonçalves — la ze sta ‘na de le pì importanti esperiense de colonizassion italiana in Brasil, segnà da tanta duresa ma anca speransa. I documenti usà par scriver sto romanso i vien da lètare vere de emigranti, raconti orai de i dessendenti, verbai aministrativi imperiai e memòrie de comunità conservà ´ntei archivi comunai e ´ntei sentri culturai de la Serra Gaúcha.

"Radise de Speransa no la vol mia èsser solo un raconto stòrico, ma un ponte tra el passà e el presente — tra la nostalgia de chi la ze partì e la forsa de chi la ze restà. Con dando vose a personasi che no i ze mai esisti ufissialmente, ma che i ga vivesto in ogni gesto de chi ga laorà, piansesto e sonià soto el cielo brasilian, sto romanzo el vol ricordar al letor che la libartà, tante volte negà in tera nativa, la ga trovà radise in tera foresta — e che da quei radisi i ze nassesto no solo colònie, ma identità, culture e eredità che incòi dura.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta